Não será possível controlar influência das milícias nas eleições, admite ministro Raul Jungmann

  • Por Jovem Pan
  • 11/05/2018 09h05 - Atualizado em 11/05/2018 09h17
FáTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOJungamnn disse que a intervenção no Rio é como um "copo meio cheio, meio vazio". "Gradativamente o copo vai enchendo e os resultados vão se tornar perceptíveis", garantiu.

O ministro da Segurança Pública Raul Jungmann falou na manhã desta sexta-feira (11) ao Jornal da Manhã da Jovem Pan e abordou o caso Marielle, a influência das milícias e do tráfico nas eleições deste ano, a eficiência da intervenção federal no Rio de Janeiro e o caos do sistema penitenciário do Brasil.

Assim como afirmou à imprensa nesta quinta (10), quando disse que o inquérito que apura a execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes está chegando ao fim, Jungmann confirmou que o caso “está entrando na reta final”, mas disse não ser capaz de estimar um prazo para a sua conclusão.

“Não é possível fixar um prazo até porque, num caso complexo como esse, reviravoltas podem acontecer, embora eu ache que a previsibilidade disso seja baixa”, disse o ministro.

“O que existe é que de fato você está entrando na reta final, está avançando, está se conseguindo reunir um conjunto de informações fundamentais em termos probatórios”, antecipou Jungmann. “O que importa é chegar aos executores e mandantes e ter provas para fazer uma denúncia”, concluiu.

Milícias nas eleições

Questionado, Jungmann assumiu que as milícias e o tráfico de drogas no Rio de Janeiro “continuarão” a ter influência sobre o processo eleitoral em 2018.

“Não foi possível nesse tempo, de 90 dias da intervenção, eliminar aquilo de que temos aproximadamente um milhão de cariocas que vivem num regime de exceção”, classificou o ministro, sobre os que estão “sob o controle do tráfico, da milícia e do crime organizado”.

“Isso ainda vai se perpetuar por essa eleição”, reconheceu Jungmann, ressaltando, no entanto, que a Segurança nacional prepara um aparato para tentar “reduzir e minimizar essa influência e denunciar aqueles que se possa provar que provêm das milícias ou delas são aliados”

“Há um grupo especial no Tribunal Superior Eleitoral que reúne setores da Polícia Federal, das forças armadas e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), para fazer um filtro e identificar os que estarão ligados a essas milícias”, informou.

Intervenção no Rio

O ministro Raul Jungmann afirma que a eficácia da intervenção federal no Rio, que começou em 16 de fevereiro e completará três meses na próxima semana, é como um “copo meio cheio, meio vazio”.

“Você não sai da situação trágica que se formou, refunda polícias e reestrutura, recicla, prepara e estrutura todo o aparato policial e de segurança do Rio de Janeiro em 90 dias”, ponderou Jungamnn, destacando que “não há nem de longe uma sensação de que se universalizou a percepção de que as coisas”.

O ministro da Segurança disse, porém, que se reuniu nesta quinta (10) com o presidente Michel Temer, o interventor, general Braga Netto, o secretário de segurança do Estado, general Richard Nunes, e outros quatro ministros e antecipou o teor dos números que deverão ser apresentados pelo governo nos próximos dias. Jungmann disse que há dados “de uma melhoria sensível em termos estatísticos no que diz respeito a diversos crimes que acontecem no Rio de Janeiro”.

Sobre a parte “meio vazia” do copo, o ministro reconhece que ainda ocorrem “tiroteios esparsos” no Estado fluminense, além de “certas crises”, com roubos e “muitas vezes até um arrastão”.

Já a respeito dos “sinais de mudanças” que a intervenção federal teria trazido, Jungmann citou a “reestruturação do sistema penitenciário”, as “mudanças dos comandos” e a “atuação das polícias não aleatoriamente, mas a partir da mancha criminal”.

“Gradativamente o copo vai enchendo e os resultados vão se tornar perceptíveis, universalizáveis junto à população do Rio de Janeiro”, prometeu.

Presídios como “espaço de recrutamento” de gangues

“Se tem algo que me tira o sono é exatamente o sistema penitenciário brasileiro”, disse Jungmann, reconhecendo que as cadeias são “controladas pelas grandes gangues”, sendo um local em que o Estado deveria ter um “controle absoluto”.

O ministro cita que o número de presos cresce 7% ao ano. Em 1990, havia 90 mil apenados presos, e hoje são 726 mil na cadeia. Existem também 360 mil mandados de prisão em aberto, disse. Nesse ritmo, projeta, teremos ao final de 2019 um milhão de detentos e meio milhão de mandados a cumprir. “Você percebe o tamanho da tragédia que isso representa?”, questionou.

A partir de vistorias realizadas em 21 unidades prisionais de sete Estados, Jungmann observou que “praticamente tudo entra e sai dos presídios”. E deduziu: “existe uma espécie de acordo branco, acordo tácito entre o crime organizado e o controle do sistema prisional, seja por parte das secretarias de administração penitenciária, seja por parte do próprio governo”.

O acordo seria de “não mexe comigo, que eu não crio problema com vocês”, explicou o ministro. “O crime organizado domina o sistema penitenciário nacional”, reconheceu. As cadeias funcionam, segundo Jungmann, como um “espaço de recrutamento” das facções. “Quem cai lá dentro tem de entrar nessas gangues”.

“No meu modo de entender, entre vários governos há um acordo tácito com as gangues”, reafirmou, citando a onda de violência em São Paulo em 2006, e rebeliões e confrontos recentes nos presídios de Anísio Jobim em Manaus (AM), que deixou 56 mortos, e em Alcaçuz (RN), com quase 30 assassinados, ambos no começo de 2017.

Ouça a entrevista: