Negar direito ao território é genocídio com povos indígenas, diz Sonia Guajajara, vice de Boulos

  • Por Jovem Pan
  • 18/09/2018 10h11
Derek Flores/Jovem Pan"No Brasil, há decisão política de não demarcar territórios e, quando você nega, você condena uma população toda ao extermínio”, disse

Primeira indígena a concorrer em uma chapa presidencial, Sonia Guajajara já afirmou que entrou na corrida para defender o meio ambiente e a temática do índio. Vice de Guilherme Boulos na corrida presidencial, ela defendeu a retomada de territórios e o direito básico à moradia. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Manhã, Sonia Guajajara, entretanto, não defendeu a invasão de terras.

A gente participa de movimento, Boulos lidera o MTST, a gente faz ocupações. Movimentos indígenas também fazemos retomadas de territórios (…) A Constituição de 1988 garantiu que cinco anos para frente terras indígenas teriam que ser demarcadas. No caso das moradias não é diferente. A gente não incita invasões”, ressaltou ao defender a ocupação de imóveis ociosos e sem função social. “O que a gente quer é justiça e que o direito básico à moradia seja respeitado (…) Assim como tem que descentralizar renda, tem que descentralizar o uso da terra”.

Para Sonia Guajajara, não é justo que não se estabeleça um limite para a área destinada a propriedades privadas no País e defendeu a democratização de seu uso: “Porque assim, sempre quem tem mais dinheiro vai comprar todo o território e deixar os outros à mercê? A terra é bem comum, tem que ser democratizado o uso”. A vice de Boulos deixou clara ainda a indignação com a violência com a qual o povo indígena sofre no Brasil e chegou a falar em genocídio. “Genocídio com povos indígenas, negação do direito ao território. No Brasil, há decisão política de não demarcar territórios e, quando você nega, você condena uma população toda ao extermínio”, disse.

Nós somos hoje 305 povos. Em 1500, na invasão europeia, éramos mais de cinco mil povos, éramos mais de cinco milhões. A invasão europeia foi matando os povos para dar lugar ao ‘progresso’. Quantas línguas indígenas temos? 274 línguas, isso registrado. Não é estimativa. Aqui tinha presença indígena mais de 15 mil anos antes de 1500. O Brasil tinha que respeitar. Nós indígenas somos a maior riqueza. Quando pega as terras públicas do país, as indígenas são as mais preservadas”, defendeu.

Sonia Guajajara explicou ainda que, para manter a identidade dos povos indígenas, é preciso ter um território demarcado. “Acha justo ter indígenas na beira da estrada porque não tem território? Conflitos no MS, uso da terra está errado. Está centralizado na mão de poucas pessoas, na mão do agronegócio, de fazendeiros”, continuou.

Ela ainda questionou o agronegócio no quesito da alimentação e os subsídios dados aos agrotóxicos. “O agronegócio produz alimento com veneno e o colocado na nossa mesa é veneno”. Para Guajajara, a produção de alimentos como fazem os indígenas hoje é o ideal. “Hoje eles podem produzir e produz o quanto quer. A gente trabalha para a subsistência. A diferença é que produzimos pensando no dia a dia, a gente não tem pensamento de acúmulo de riqueza”, finalizou.

Confira a entrevista completa com a vice na chapa de Guilherme Boulos à Presidência, Sonia Guajajara: