Quase 70% das mães que trabalham enfrentam sintomas de burnout parental, aponta pesquisa

Quadro é caracterizado por grande exaustão física, mental e psicológica diante de um acúmulo de muitas atividades

  • Por Jovem Pan
  • 22/05/2022 11h13 - Atualizado em 22/05/2022 11h14
Pixabay Mulher grávida usa vestido vermelho e coloca a mão na barriga Muitas mães acabam sofrendo o chamado burnout parental, um quadro que envolve níveis extremos de exaustão e fadiga.

A depressão pós-parto é uma doença conhecida pela população, mas muitas mães acabam sofrendo o chamado burnout parental, um quadro que envolve níveis extremos de exaustão e fadiga. Uma pesquisa da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, descobriu que 68% das mães que trabalham enfrentam sintomas de Burnout. Entre os pais essa porcentagem cai para 42%. A psicóloga Shana Wajntraub explica porque mulheres que são mães estão suscetíveis ao quadro. “Elas têm uma privação de sono, um cansaço físico, a questão da amamentação, a parte hormonal também vai afetar, os hormônios afetam diretamente as nossas emoções. Quando ela tem também muita tarefa em casa, no trabalho, preocupação em dar conta. É muito comum o sentimento de culpa das mães. E também porque ela se isolando e tendo muitas conversas com pessoas do ciclo dela a respeito do bebê, de ser mãe, desse papel que ela acaba de assumir. A intensidade e adoração da tristeza são dois fatores importante. Se ela passa dias tristes, ela se afasta das pessoas, não tem prazer em cuidar do filho. É um momento, um alerta, para ela procurar ajuda”, diz

Quando ficou grávida, Lívia Polyquizo tinha uma ideia muito clara na cabeça: “Eu não admitia que gerar uma nova vida fosse tão pesado. Então, eu não só tinha que trabalhar, como eu trabalhava, como eu tinha que trabalhar até mais. ‘O peso da barriga não pode me parar. O final da gestação não vai me parar. Eu vou trabalhar até o último dia possível'”, relembra. Com toda essa carga, Lívia não teve um pós-parto fácil. Além alguns problemas com a recém-nascida, a então professora passou a se cobrar até a exaustão. “É porque eu ainda não tinha digerido que eu não tinha tido o parto que eu queria. É porque eu ainda não tinha me perdoado porque eu complementei a minha filha, porque a amamentação foi difícil. A amamentação foi difícil porque o parto foi difícil… Tudo isso, eu estava sempre contando uma historinha para o meu cérebro de que estava tudo bem. E que eu precisava ser mais forte”, comenta.

Quando a filha dela, Catherine, completou um ano, uma amiga de Lívia recomendou ajuda. Mas a mãe ainda via como mais um momento em que precisava se esforçar mais. Ainda carregando traumas de um pós-parto difícil e de uma demissão no retorno da licença maternidade, a pressão sobre si mesma aumentou nas outras duas gestações. Depois de ter lido muito conteúdo sobre amamentação e psicologia materna, Lívia decidiu mudar de carreira para ser consultora materno-infantil. Ela percebeu que era a própria personagem que estudava. Em dezembro do ano passado buscou ajuda. “Quando foi chegando outubro do ano passado, mais ou menos, eu sempre fui uma pessoa muito espontânea, muito alegre, eu sempre fiz muitas atividades ao mesmo tempo. E comecei a perceber que eu não estava. E eu não estava alegre por estar triste. Parecia que não tinha força para me manter alegre. Eu, Lívia, precisei de muita coisa esfregando na minha cara. Em dezembro, a gente foi fazer uma viagem que a gente planejou por muito tempo, a gente não via a hora da pandemia terminar. Era um lugar maravilhoso e eu estava na viagem parecendo que estava em um velório”, lembra.

A psicóloga Shana Wajntraub ressalta que as mães precisam dedicar algum tempo para o autocuidado, mesmo que seja alguns minutos. “Cuidar da saúde física, mental e espiritual, cuidar do sono, porque o sono vai interferir diretamente ao bem-estar. Saber dizer não da mãe também. Teve uma mulher, uma mãe, que falou assim: ‘nossa, eu posso ficar sem fazer nada?’ Eu falei, ‘sim, quinze minutos’. É importante que a mãe tenha um tempo para ela. Afastar um pouco do bebê em alguns minutos, se possível, claro, tendo uma rede de apoio. Se cuidar, perceber como ela está, ficar em silêncio”, pontua.

Lívia começou a cuidar de si e fazer atividades que dão prazer além de estar com filhos e trabalhar. Para ela e também para o marido ainda há um longo caminho pela frente. “Quando você está doente, você não consegue enxergar que está doente, admitir que está doente, ainda mais quando a gente fala de saúde mental. Meus filhos me adoeceram? Não, meus filhos não me adoeceram. A maternidade me adoeceu. Porque maternar em um país como o nosso é muito solitário. E sair é difícil. De tanta coisa que eu vou escutar. E olha que eu me acho muito bem resolvida. Inclusive para dar boas respostas como devolutiva. Eu falar que estava pesado demais é uma parte ainda muito difícil. Porque talvez eu saiba que eu não vou dormir muito e isso me gera angústia. Então ela conversou com meu marido para saber se ele poderia chegar mais cedo, pelo menos neste momento, eu sair, poder fazer uma caminhada, para não fazer nada. Eu acho que eu tenho enchido o meu baldinho, pouco a pouco, de energia e de autocuidado. Ainda tenho muita dificuldade, mas eu acho que todo esse processo… estou no meio desse caminho”, finaliza Lívia.

*Com informações da repórter Nanny Cox