Seis meses após o desastre, buscas em Brumadinho não têm data para terminar

  • Por Jovem Pan
  • 23/07/2019 11h38
WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO22 pessoas ainda estão desaparecidas

Seis meses após o rompimento da barragem da Mina I de Córrego do Feijão, em Brumadinho, o cenário de resgate por corpos de vítimas da tragédia mudou. Junto com ele, as tecnologias empregadas na operação também se transformaram. Já são 180 dias ininterruptos na maior operação de busca e resgate da história do país.

Na entrada da base do Corpo de Bombeiros, próximo ao local do rompimento da barragem, a pintura de um bombeiro herói, com o recado de um artista, estampa o sentimento que trouxe os trabalhos até aqui: desistir não é uma opção. Em uma área de 4 milhões de m², cerca de 140 bombeiros trabalham todos os dias com o auxílio de quase 200 macas. O início da operação foi marcado pelas buscas superficiais e visuais em toda a área. Conforme a lama teima em esconder vestígios de vida em até 15 metros de profundidade, eles sofisticam os métodos de resgate.

A corporação de Minas Gerais desenvolveu um sistema de cruzamento de dados georreferenciado para mapear possíveis locais onde os corpos de desaparecidos ainda podem ser encontrados. O porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Pedro Aihara, conta que se a operação ocorresse sem o uso da tecnologia, poderia durar até cinco anos.

“A gente vai pegando todas essas informações de onde os corpos foram encontrados, onde essas pessoas estavam, de itens que são encontrados também e vai alimentando isso na base de dados. A gente tem um trabalho em paralelo de identificar qual era o perfil da pessoa desaparecida, quais eram os itens que ela estava utilizando, quais eram os locais onde ela costumava frequentar”, explica.

Por meio de um aplicativo de celular, os bombeiros em campo vão catalogando cada objeto encontrado, desde mobiliários até pequenas joias. Em 180 dias, um total de 92% das vítimas foram localizadas, com apenas 10% da lama e rejeito de minérios remexidos pelos bombeiros.

O sucesso da operação também conta com outra inteligência: os cães farejadores são responsáveis por até 80% dos corpos encontrados. Nessa fase, de dois a quatro cães vão à campo. Um deles é Shogum, um labrador preto que viajou da Paraíba junto com seu condutor. O chefe da operação com cães, tenente André Dutra, explica que eles agilizam as buscas. “A gente não tem um faro tão apurado e às vezes a gente nem sente o cheiro que o cão sente. Então muitas das vezes, nas buscas, o cão acha alguma coisa que a gente nem imagina encontrar”, contra.

O Corpo de Bombeiros insiste que a possibilidade de término das buscas ainda não é levantada. Aihara afirma que as condições físicas das áreas mapeadas ainda permitem a identificação de corpos. “Até que a gente atinja esse ponto de não ser mais possível diferencial o que é material orgânico, o que é rejeito, a gente continua aqui. Eu acho que é o mínimo que a gente pode fazer diante da angústia que essas famílias que ainda estão com desaparecidos estão passando.”

No início do mês, um corpo de um homem praticamente intacto foi encontrado. 22 vítimas permanecem desaparecidas, sendo que 21 delas eram funcionários da Vale que estavam na barragem ou na área administrativa da empresa. A outra vítima, Dona Maria de Lourdes Bueno, estava hospedada na pousada Nova Estância, local completamente destruído pelo mar de lama.

Ao todo, 248 corpos já foram identificados.

*Com informações da repórter Victoria Abel