Sobrevivente de prédio que desabou diz por que não quer ir para albergue da Prefeitura: “vão nos esquecer”

  • Por Jovem Pan
  • 03/05/2018 12h22 - Atualizado em 03/05/2018 12h24
Jovem PanJovem grávida, Helena conta com doações acumuladas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, mas teme deixar praça pois acredita que vai ser esquecida pelo poder público

O incêndio no edifício Wilton Paes de Almeida, que era ocupado por um movimento de sem teto deixou 146 famílias desabrigadas.

A situação das moradias já era bastante precária com falta de saneamento adequado, ligações clandestinas de energia elétrica, botijões de gás e falta de conservação estrutural.

No entanto, a situação de não ter mais um teto para dormir trouxe preocupação e muita revolta.

Uma das desabrigadas é Helena Félix Santos, que aos 17 anos está grávida de seis meses.

Na hora do incêndio, teve que correr para salvar a vida dos parentes próximos e, agora, tem medo de ser esquecida em um abrigo provisório.

“(Saí) com a roupa do corpo. As crianças saíram (do prédio) descalças, outras sem roupa, porque estavam todas dormindo”, conta Helena, que perdeu até os documentos.

“As crianças a gente deixou na casa dos parentes próximos para não ficarem na rua e nós ‘tá’ aí se virando”, afirmou.

“Tem gente querendo ir para outra ocupação, mas ninguém quer ir para abrigo. Porque na hora que vai para lá (abrigo) eles vão esquecer, não vão nem ligar”, projeta a jovem.

O aluguel-social, pagamento mensal de R$ 400 oferecido pelo governo aos desabrigados, é uma solução paliativa, enquanto o sonho da casa própria não vira realidade.

Familiares de desabrigados ajudam nas doações

Enquanto o impasse sobre o futuro não se resolve, ao menos a solidariedade ajuda a diminuir o sofrimento de quem perdeu o pouco que tinha.

Do outro lado do prédio desabado está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que virou uma central de apoio na montagem de kits com roupas, água, alimentos e produtos de higiene vindos de doações.

Andreza Silva foi ajudar a mãe que morava na ocupação desabou, mas ficou para colaborar na divisão das doações. “Tem sempre alguém que pode ajudar”, disse.

A Irmã Sônia Pereira é assistente social da igreja e conta que as doações ajudam no momento imediato, mas que os desabrigados querem moradia fixa.

“Muita gente, a maioria deles não quer ir para albergue, porque eles falam que querem uma moradia, o que é um direito deles”, pondera Sônia. “Mas todo esse processo é muito lento quando a gente fala de poder público”, disse, citando as dezenas de pessoas acampadas em frente à capela, no Largo do Paissandu.

“Eles falam que não vão sair daqui se não tiver um lugar certo para poder ir”, relata.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a cidade conta com 206 ocupações que totalizam 45.782 famílias em todas as regiões.

Assista à reportagem de Fernando Martins:

Veja também, em vídeo, as notícias mais recentes direto do Largo do Paissandu, com o repórter Tiago Muniz: