Sociedade inglesa vive grande dilema moral

  • Por Ulisses Neto/Jovem Pan em Londres
  • 11/07/2017 10h22
“Salvem Charlie Gard”, diz cartaz de partidários dos pais do garoto com doença rara e incurável, em frente à Corte Suprema de Londres

A sociedade inglesa vive um grande dilema moral nas últimas semanas que deve chegar a uma conclusão na próxima quinta-feira (13).

Vocês provavelmente já ouviram falar do caso do bebê Charlie Gard. Ele tem onze meses de idade e sofre de uma doença genética extremamente rara, considerada intratável e incurável, a Síndrome de Depleção Mitocondrial. Apenas outros 19 casos em todo o mundo foram confirmados cientificamente.

O hospital aqui em Londres que cuida de Charlie desde as suas primeiras semanas de vida decidiu desligar os aparelhos que o mantém vivo por entender que o tratamento está apenas causando mais sofrimento para o bebê. A decisão foi ratificada por todas as instâncias da justiça britânica e também por um tribunal europeu.

A questão é que os pais de Charlie, em uma postura absolutamente compreensível, não concordam com a decisão e querem tirá-lo do país para receber tratamento alternativo nos Estados Unidos ou na Itália.

Médicos desses países afirmam que técnicas experimentais poderiam trazer um aumento na sobrevida do bebê, que por causa da doença já não enxerga nem ouve e só respira com a ajuda de aparelhos.

Os especialistas do hospital Great Ormond Street, que é considerado uma referência em doenças mitocondriais, rechaçam essa possibilidade.

O impasse foi parar na justiça porque as leis britânicas indicam que quando os médicos e os pais de uma criança não concordam sobre a continuidade de um tratamento, o caso deve ser levado aos tribunais.

O papa Francisco e o presidente americano Donald Trump já se pronunciaram sobre o assunto defendendo que Charlie seja submetido ao tratamento alternativo, não tem nenhuma comprovação científica e sequer foi testado em animais até hoje.

Mas o argumento da família é o de que enquanto há vida há esperança. Eles já arrecadaram inclusive o equivalente a cinco milhões e meio de reais para custear a viagem aos Estados Unidos. Grupos militantes pró vida têm feito manifestações na porta do tribunal aqui em Londres e o caso toma conta da mídia britânica porque o questionamento é se o Estado deveria mesmo intervir na decisão dos pais, mesmo que ela tenha como principal objetivo defender os interesses e o bem-estar do bebê.

O juiz do caso afirmou ontem que não vai tomar decisões baseadas em tuítes ou em mobilização popular e deu 48 horas para que a família de Charlie produza evidências de que o tratamento alternativo pode trazer algum benefício para o Charlie Gard. Caso contrário, é muito provável que os aparelhos que mantém o bebê vivo sejam desligados nos próximos dias.