Um ano após Olimpíadas, carioca ainda sente o gosto de um amargo fim de festa

  • Por Jovem Pan
  • 07/08/2017 07h15 - Atualizado em 07/08/2017 11h04
Nascidos e criados na Cidade Maravilhosa, essas pessoas revelam o que sentem depois do ciclo de eventos que deixa uma realidade difícil para o carioca

Mais de um ano depois do encerramento dos Jogos Olímpicos, o carioca ainda sente o gosto de um amargo fim de festa. A Jovem Pan ouviu moradores conhecidos e outros anônimos da capital fluminense. Nascidos e criados na Cidade Maravilhosa, essas pessoas revelam o que sentem depois do ciclo de eventos que deixa uma realidade difícil para o carioca.

“Me sinto ofendido, desprezado, deixado de lado. O pessoal não se importa com o que está acontecendo, o pessoal que governa”. Dá para perceber o quanto o jornaleiro Luan Mesquita está desanimado com o que o Rio de Janeiro tem sofrido nos últimos tempos.

E ele não é o único. Morador de Bangu, o empresário Cláudio Alencastro traçou uma meta nos últimos tempos. Ele quer sair do Rio de Janeiro. Não só da cidade, mas do Estado, se for possível: “com tristeza a gente fala isso, mas a segurança do jeito que está…”

Para ele, já não dá mais para chamar o Rio de Janeiro de Cidade Maravilhosa: “ultimamente a gente tem perdido essa alegria e vontade de chamar de Cidade Maravilhosa”.

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura diz que também testemunha a crise que a cidade tem vivido, mas acaba fazendo isso um pouco a distância.

Adriano Pires nasceu e mora no Rio de Janeiro, mas disse que os negócios desapareceram e ele passa boa parte da semana fora da cidade: “eu já me acostumei a estar bastante ausente durante a semana na cidade, porque a economia do Rio acabou”.

E quem circula diariamente pelo Rio de Janeiro sente o que foi prometido como legado se esfacelando.

O trabalhador da Marinha Mercante Diego Souza da Silva afirmou que tanto as estruturas esportivas quanto as estruturas urbanas estão com problemas: “tudo o que foi feito tanto para Olimpíadas quanto Copa do Mundo foi maquiagem para a cidade. O material usado nas obras é de má qualidade”.

Para os moradores do Rio ouvidos pela Jovem Pan, está cada vez mais difícil ser otimista com a sucessão de problemas que a capital fluminense encara nos últimos meses.

O Estado e a cidade enfrentam uma crise orçamentária gigantesca, que faz com que serviços básicos deixem de atender à população.

Por causa dos problemas financeiros, a violência cresce e essa combinação de fatores eleva a desesperança, especialmente nas áreas mais carentes.

O fundador da ONG Afroreggaem José Júniorm ressaltou que esse colapso se sente de maneira mais extremada nas comunidades: “acontece um verdadeiro genocídio do jovem negro morador de favela do RJ”.

O rapper MV Bill é um outro observador do que acontece dentro e fora das comunidades. Para ele, a política de pacificação fracassou ao não se apoiar em outras iniciativas que deveriam ter sido tomadas pelo poder público. “Todo mundo sabia de que seria projeto que só iria prosperar se tivesse outros tentáculos governamentais envolvidos. Hoje já se assume publicamente que a política de segurança pública do Rio fracassou”.

O escritor Ruy Castro é mineiro de Caratinga, mas tem uma vida identificada com o Rio de Janeiro. Ele entende que os tempos que a capital fluminense enfrenta são muito difíceis, mas que a cidade maravilhosa vai sobreviver: “o Rio tem sido chamado de ex-cidade Maravilhosa e continua sendo chamado e vai sobreviver. Essa desclassificação do Rio como Cidade Maravilhosa é uma coisa histórica”.

Nos seus 455 anos de idade, o Rio de Janeiro passou por muitas transformações. De domínio colonial a capital do império e da república e depois cidade olímpica, o Rio tenta reunir forças para se transformar mais uma vez.

*Informações do repórter Tiago Muniz