Um ano após primeira morte por Covid-19, rotina de profissionais da saúde é de incerteza e apreensão

Primeiro óbito pela doença foi registrado no dia 12 de março de 2020; vitima era uma mulher de 57 anos internada na Zona Leste de SP

  • Por Jovem Pan
  • 12/03/2021 07h29
PAULO MUMIA/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDOBrasil tem registrado recordes seguidos de mortes e internações, os piores números desde o início da pandemia

Um homem de 61 anos que costumava frequentar o famoso mercado de peixes de Wuhan, na China, foi a primeira vítima confirmada do novo coronavírus em dezembro 2019. No Brasil, a primeira morte completa um ano hoje: dia 12 de março. A vitima, uma mulher de 57 anos, estava no Hospital Municipal do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo. Daquele dia em diante, a vida de todos os brasileiros mudou drasticamente — principalmente a dos profissionais da saúde, como a Rosângela Soares dos Santos.

A enfermeira do Hospital Emílio Ribas passou a dormir dentro do carro para ficar longe da mãe, de 69 anos, e do filho, de 8 anos. “Eu percebi que meu menino esperava eu dormir para poder abraçar porque desde que começou a pandemia eu não chegava perto deles. Tanto que hoje me dei conta que tenho uma foto com meu filho do começo da pandemia até agora. Eu passei a dormir no carro no intuito de protegê-los mesmo, porque eu não conseguia descansar.” Um ano depois, ela adaptou a rotina para voltar a dormir dentro de casa: o uso de máscaras, por exemplo, é frequente mesmo entre quem mora lá.

Apesar de momentos felizes, como ter sido uma das voluntárias vacinadas com a CoronaVac, Rosângela, que cuidou e presenciou o falecimento até de colegas de trabalho, conta que a sensação é de desânimo. “O nosso desgaste emocional é muito grande, porque a gente está vivendo coisas que todo mundo fala ‘ah, mas profissional de saúde não tem coração’. Nao chora, não sofre. Você já está acostumado com isso. E não é verdade, por trás do profissional está uma pessoa que tem sentimentos. Isso me dá um desânimo muito grande, porque a gente está há um ano se privando de muitas coisas, vendo famílias, amigos, colegas de trabalho falecerem sem uma mudança de postura da sociedade.”

Mesmo cansada, agora, a preocupação da enfermeira é com a mudança do cenário: ela explica que os jovens adultos, entre 18 e 50 anos, tem sido os mais afetados pela nova onda de Covid-19 no país. O Brasil tem registrado recordes seguidos de mortes e internações, os piores números desde o início da pandemia. Rosângela não parou e nem vai parar de trabalhar. Para esse ano, ela espera uma única coisa: “Que nós possamos voltar ao nosso cotidiano normal, sem medo e sem a Covid-19.”

*Com informações da repórter Beatriz Manfredini