Vladimir Putin completa 20 anos no poder da Rússia

  • Por Jovem Pan
  • 09/08/2019 09h46
EFEO ex-agente da KGB, o serviço de inteligência da União Soviética, assumiu o cargo de primeiro-ministro em 9 de agosto de 1999

Passados vinte anos da ascensão ao poder, é cada vez mais difícil separar Vladimir Putin da Rússia. O ex-agente da KGB, o serviço de inteligência da União Soviética, assumiu o cargo de primeiro-ministro em 9 de agosto de 1999. Desde então, ele nunca mais se afastou do controle do maior país do mundo.

Putin foi conduzido ao posto de premiê por Boris Yeltsin, o primeiro presidente eleito na Rússia após o fim do regime comunista. Só que em 1999, o que estava chegando ao fim era a própria vida política de Yeltsin. As alegres demonstrações públicas do presidente contrastavam com uma profunda crise econômica e política. Então, na virada para o ano 2000, ele renuncia, e nomeia Putin como presidente interino. Pouco tempo depois, o ex-agente da inteligência vence as eleições e se transforma em presidente de fato.

O economista russo Igor Schnee mora no Brasil há 70 anos, mas acompanha a situação na terra natal de perto, tendo voltado para lá mais de uma vez a trabalho. Para ele, a ascensão e a consolidação de Putin no poder tem muito a ver com um traço importante de personalidade.

“Meus companheiros de trabalho achavam que Yeltsin tinha um pulso fraco, que tinha se entregue muito para o capital estrangeiro e não estávamos muito satisfeitos com o presidente Yeltsin. Eles estavam dizendo que a Rússia estava precisando de um presidente com o pulso forte.”

As portas do poder foram abertas para Putin com uma melhora econômica imediata, depois que os preços do petróleo dispararam. O presidente abriu guerra na Chechênia e se reelegeu em 2004, num segundo mandato marcado pelo início dos choques com o ocidente. A invasão da Crimeia e os posicionamentos da Rússia na guerra da Síria e na questão da Venezuela colocam o país em contraponto com a Otan e os Estados Unidos.

O professor do Departamento de História da USP Angelo Segrillo diz que o momento atual faz lembrar as tensões do passado. “Parece que tanto do lado dos EUA quanto em resposta na Rússia, essa oposição está sendo tomada como que permanente, um clima de Guerra Fria.”

Em 2008 o presidente não pôde disputar a reeleição, mas ele realizou uma manobra política que lhe permitiu a permanência no poder. O aliado Dmitri Medvedev é eleito presidente e nomeia o próprio Putin como primeiro-ministro.

Em 2012, a dança das cadeiras se inverte. Putin vira presidente de novo e Medvedev assume como premiê. Em 2018, Putin foi reeleito.

O economista russo Igor Schnee é bastante direto ao explicar porque considera que o poder de verdade está nas mãos de Putin. “Eu acho que é uma marmelada. Ou seja, na verdade, o poder está nas mãos do Putin que está se revezando com Medvedev o para os incautos verem.”

Pelo menos, em tese, as instituições continuam funcionando, dançando conforme a música.

O professor do Departamento de História da USP Angelo Segrillo diz que o momento atual da Rússia é de uma democracia bastante problemática. “Formalmente o Governo tem mecanismos que podem controlar o sistema. Em democracias mais consolidadas, o Governo não tem tanta força assim. Então, é uma situação muito ambígua.”

Essas condições são tornadas mais grave pelas infrações aos Direitos Humanos apontadas por organismos internacionais. Durante a Copa do Mundo, ficou em evidência perante os outros países como a Rússia reprime os gays, com a existência de leis discriminatórias. Manifestações são coibidas com bastante violência.

A diretora do escritório da Human Rights Watch no Brasil, Maria Laura Canineu, lembra que agora há pouco, durante eleições municipais, ocorreram prisões generalizadas. “O último capítulo desses 20 anos de poder do Putin aconteceu recentemente, que foi o uso excessivo da força e a prisão de mais de mil pessoas que protestavam contra a exclusão de opositores políticos nas próximas eleições municipais. Entre os presos estavam mais de 80 crinaças e pelo menos 14 jornalistas.”

Ao longo dos anos, Vladimir Putin se deixou flagrar em momentos que o mostram fisicamente como um homem forte. Nessas duas décas, vimos que o presidente, hora primeiro-ministro, age com uma força política nem sempre muito sutil. O atual mandato do líder russo termina em 2024 e, se ficar no Governo até lá, terá sido o líder mais longevo dos russos desde a queda do império, atrás apenas de Josef Stalin.

*Com informações do repórter Tiago Muniz