O Fim da Picada: Cuidados para gestantes e mitos

  • Por Jovem Pan
  • 28/12/2015 11h15
Mariana e Clara

 Tem gestante deixando o nordeste para concluir a gravidez longe do surto de microcefalia. Há mulheres adiando os planos de ser mãe.

Já a Clarinha, de 5 anos, está feliz. Daqui seis meses vai ganhar um irmãozinho. Mas mesmo sem notar, compartilha de um medo que a mãe carrega no ventre, ao lado do caçula. A criança acaricia a barriga, com a mão besuntada de repelente.

O zika, transmitido pelo mosquito da dengue, consegue atravessar a proteção da placenta e provocar malformação no cérebro do feto. Cerca de 90% das microcefalias estão associadas a algum retardo mental. Mas podem, também, levar à morte.

Mariana, grávida de três meses, levou dois sustos: o primeiro quando soube tardiamente do potencial do vírus e o segundo com a enxurrada de informações desencontradas sobre o assunto: “No começo eu fiquei muito apavorada. Planejei tanto a minha gravidez, mas nunca pensei passar por isso durante na minha gestação. São muitas informações, especulações, as pessoas postam milhões de coisas nas redes sociais e isso atrapalhou”.

Grande parte das dúvidas que inunda o consultório do pediatra Moises Chencinski, por exemplo, são lendas: “Depois que a criança nasceu a microcefalia não vai acontecer, não tem comprovação. Não existe nenhum caso comprovado de zika vírus, dengue ou chikungunya que foi transmitido pelo leite materno. Vitaminas do Complexo B não protegem, comer alho e cebola faz exalar um cheiro ruim que afasta o inseto temporariamente mas não resolve, aqueles repelentes feitos com cravo não resolvem”.

A questão de que o zika só faz mal ao feto nos primeiros meses de gestação, mais uma vez, é falsa, alerta o professor de obstetrícia da Unifesp, Antonio Moron, que diz: “Pode acometer o feto em qualquer momento da gestação. Se acometer precocemente vai ter um dano muito maior, vai surgir a forma mais grave da doença que é a microcefalia. Mas se acometer em outros momentos podem surgir outras alterações, inflamação do cérebro, calcificações, hidrocefalia, lesões sensoriais, auditivas e visuais”.

Enquanto a proliferação do mosquito não é controlada, às grávidas restam usar roupa comprida, mesmo no verão, e passar repelente, que aliás, sumiu das farmácias, admite o atendente ao repórter Tiago Muniz: “Estão ligando até de madrugada para reservar, mas não tem como porque não temos previsão de quando vai chegar”.

A empresária Carolina Martins também espera que a promessa do governo de distribuir o produto de graça para gestantes seja cumprida rapidamente.

A ideia é ampliar a produção do Exército Brasileiro, que manipula uma fórmula mais “forte” e duradoura para uso interno.

Aliás, é bom esclarecer que existem três princípios ativos disponíveis no mercado. O mais eficaz é o icaridina. Chega a ficar na pele por até 10 horas dependendo do calor do dia e de quanto a pessoa transpira.

Mas, atenção! A aplicação indiscriminada do produto, que é tóxico, também pode trazer problemas para a saúde, alerta o infectologista Artur Timerman: “Tem muita gente que fala que a icaridina é aprovada para gestantes, mas qual é o estudo clínico que tem em gestante? Nenhum, não pode fazer estudo clínico em gestante. É tudo presunção. A molécula da icaridina é menos plausível de causar problemas de má formação fetal”.

Outro alerta: microcefalia é apenas a ponta do iceberg. Há inúmeras doenças relacionadas ao zika com graves problemas neurológicos que estão ainda sendo investigadas, inclusive, 80% das pessoas que contraem zika não apresentam qualquer sintoma. Ou seja, tem muita mulher que nem sabe que já contraiu o vírus.

E, sim, há muitas perguntas sem respostas. Inclusive, a principal: é seguro engravidar agora?

O presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, Artur Timerman, aconselha: “Eu e a nossa sociedade recomendamos às mulheres, se possível, evitem a gravidez agora”.

Reportagem: Carolina Ercolin