O Fim da Picada: a falta de investimento em ciência no Brasil

  • Por Jovem Pan
  • 23/12/2015 13h00
Lygia da Veiga Pereira

 O que o estádio Mané Garrincha, em Brasília, tem em comum com a sonda da NASA que chegou aos limites do sistema solar em meados do ano? O preço! Ambos custaram em torno de US$ 700 milhões.

Um trouxe à humanidade informações inéditas sobre um longínquo planeta. O outro sediou sete jogos da Copa e se transformou em um elefante branco do Distrito Federal.

A constatação deixa claro quais são as prioridades por aqui. A cientista Lygia da Veiga Pereira afirma: “Não dá para fazer ciência de primeiro mundo aqui. Fica todo mundo fingindo, com um discurso ufanista, que a produtividade da ciência no Brasil aumentou. Pode até ter um número maior de trabalhos publicados, mas o impacto desses trabalhos, quão importante eles são, isso não aumentou”.

E a competição, especialmente quando falamos no âmbito global, sempre foi injusta, desabafa Lygia da Veiga Pereira, uma das mais ativas do país: “Cientista brasileiro faz corrida de velocidade, e ciência é uma corrida de velocidade que você compete com o mundo inteiro. Só que a gente está correndo na areia fofa, cheia de dificuldades bobas”. Mas com perseverança, a ciência vai sobrevivendo. A própria bióloga é reconhecida pelas pesquisas pioneiras sobre células-tronco no Brasil.

Em março, outra equipe, a do doutor em virologia Gúbio Soares, também fez avanços na Bahia. Foi uma das primeiras a identificar o zika vírus em território nacional. Um passo fundamental para as primeiras e necessárias ações sanitárias. Como ele conseguiu isso? Usando sobras de reagentes do laboratório e muita boa vontade. Mas e depois que os produtos acabaram? Ele conta: “Nós usamos recursos que já existiam no laboratório, identificamos e, a partir daí, gastamos todos os reagentes possíveis e ficamos sem nada. Tínhamos esperança de que recursos fossem colocados em nosso laboratório, mas isso não ocorreu. Absolutamente nenhum apoio”.

Dois projetos promissores de biotecnologia vêm sendo testados no país. Um deles visa o extermínio do mosquito através do uso de espécies manipuladas geneticamente. Na prática as fêmeas põem ovos que não vingam. Isso controla a proliferação do Aedes aegypti. Mas apesar dos resultados promissores, a “fábrica” de transgênicos sofreu cortes no orçamento, o que a coordenadora do projeto, Margareth Capurro, considera previsível em tempos de crise: “Quando você tem uma crise, uma das coisas que é afetada é a pesquisa. Não que ela não seja prioridade, mas entre mandar dinheiro para um hospital ou para um projeto de pesquisa, é lógico que o dinheiro vai ser mandado para o hospital”.

Vale aqui recordarmos uma fala recente do Ministro da Saúde, Marcelo Castro: “Não tenho a menor dúvida de que recursos, dentro evidentemente das dificuldades orçamentárias que estamos vivendo, não faltarão”.

Promissora, não? Mas, ok, e se relevarmos a situação econômica do país, com cortes não só em pesquisas, mas em todos os setores… Ainda assim, dá para fazer ciência no Brasil? Dá, desafia a geneticista Lygia da Veiga Pereira: “É questão de vontade política. Eu não vou pedir mais verba agora, mas se vocês resolverem a nossa vida do ponto de vista de acabar com as burocracias, de agilizar a forma do brasileiro fazer ciência, vocês vão utilizar muito mais esse potencial das cabeças que a gente tem aqui. Tem equipamentos que eu pedi em maio desse ano, que foram pagos em dezembro e, com alguma sorte, vão chegar em março ou abril. Dá para imaginar isso?”.

Em curto prazo, temos na mira a vacina da dengue produzida pelo Instituto Butantan. A fase 3, que acabou de começar, vai durar 5 anos. Mas em 2018 já podemos começar a distribuição. A de zika, só a título de curiosidade, é coisa para a próxima década.

Voltando à dengue, serão investidos ao todo quase R$ 500 milhões no desenvolvimento da imunização. Parece muito, não? Lygia da Veiga Pereira diz: “Não é nada perto do custo que essa doença já teve para a sociedade e ainda vai ter até 2018. Se você pensar no custo de saúde pública, no custo de pessoas que não vão trabalhar, estamos falando em economia”.

O pesquisador Gubio Soares, aquele do começo da reportagem que não teve verba para pesquisar o zika vírus, desabafa: “Essa obra do rio São Francisco agora, onde foram desviados R$ 200 milhões. Imagina R$ 200 milhões colocados na pesquisa de zika? Todos nós estaríamos sorrindo!”.

E só para reforçar, professor: O desvio de recursos do Rio São Francisco se torna troco de bala quando comparado aos mais de R$ 6 bilhões descobertos e investigados pela Operação Lava Jato até agora.

E na quinta-feira (24/12), no 4º capítulo da série especial “O Fim da Picada”, o que o Brasil pode aprender com Cingapura e Cuba e quais as armas usadas por esses países para vencer a guerra conta o mosquito da dengue.

Reportagem de Carolina Ercolin