Para especialista, brasileiras sofrem discriminação semelhante a de países do oriente médio

  • Por Jovem Pan
  • 30/05/2016 13h33
Caminhada das Flores repudia abuso e agressões contra as mulheres e fez ato em frente ao STFMulheres marcham contra a cultura do estupro em Brasília

 Em apenas uma semana, três casos de violência contra a mulher horrorizaram a sociedade brasileira. No Rio de Janeiro, uma jovem foi estuprada por 33 homens que, depois de cometerem a brutalidade, ainda postaram vídeos e fotos do crime em redes sociais. Três dias antes, a apresentadora Ana Hickman sofreu um atentado dentro do hotel em que estava hospedada em Minas Gerais. E ainda na véspera, uma jovem de 17 anos foi encontrada seminua e amordaçada depois de ter sido estuprada por cinco homens na cidade de Bom Jesus, no Piauí.

O que estes casos têm em comum?

O doutor em psicologia Jacob Pinheiro Goldberg aponta o machismo, que considera uma doença endêmica da sociedade brasileira: “O machismo mórbido, doente, criminoso, e que é característico da sociedade brasileira sim. Alguém precisa dizer que aqui é um dos países do mundo em que a mulher sofre uma brutal discriminação, tal qual em alguns países do oriente médio. É disfarçado debaixo da aparência de cordialidade, mas é sim”.

A violência choca quando ela se torna uma prática física, porém, bem antes disso, é no discurso que ela se perpetua, conforme relatou Ana Hickman sobre sua experiência: “Diversas vezes eu tentei argumentar, falava ‘moço, não te conheço, não sei do que você está falando, pelo amor de deus, eu tenho um filho pequeno’ e ele, ‘seu filho Alexandre é um anjo, mas você é uma vagabunda, uma piranha, uma mentirosa, você merece morrer”.

A doutora em ciência política e professora da faculdade de comunicação Fiam-faam, Fouthine Marie, explica que não é possível combater de forma séria o alarmante número de estupros no país enquanto não entendermos que eles são cultivados no nosso dia-a-dia: “A gente vive em uma cultura em que a mulher é tratada como um ser humano menor, como alguém que é feita para servir, ou seja, cuidando da casa, da família, atendendo às necessidades sexuais do seu companheiro, e sendo constantemente sexualizada, por exemplo, com piadas sobre estupro, culpabilizando as vítimas pelo estupro, pela roupa curta que estão vestindo ou pelo fato de terem bebido, julgando sua conduta sexual”.

Já a psicóloga clínica Paula Napolitano, que é consultora da Jovem Pan, explica que até na recuperação das vítimas destes casos, nós, enquanto sociedade, temos sim responsabilidade: “Se traz ainda um mito de que o homem tem um instinto sexual muito grande, diferente da mulher que não tem esse desejo, e que ele precisa daquilo. Isso é um mito e a gente compactua com isso, com pequenas brincadeira. Eu escuto isso direto no consultório, quando a paciente diz ‘como eu não estou conseguindo com meu marido, ele vai procurar fora porque ele precisa’. Se precisa, a gente parte do pressuposto de que a pessoa faz de tudo para conseguir aquilo, e quando dizemos isso, compactuamos para ações como essa, porque no final das contas estamos dizendo que ainda somos animais”.

Nas redes sociais a hashtag #EstuproNãoÉCulpaDaVítima chegou aos trending topics do Twitter. Já no Facebook, as campanhas “Eu luto pelo fim da cultura do estupro” e “Quero um dia sem estupro” tomaram conta das timelines brasileiras. Na página da vítima, ela escreveu uma mensagem de agradecimento pelo apoio recebido. Disse ainda que pensou que seria mal julgada pelo crime em que ela foi vítima. Em duas horas, a publicação já havia recebido 1.700 curtidas, 227 comentários e 25 compartilhamentos.

Reportagem: Helen Braun