Sem transporte, como faz? Repórter registra realidade de brasileiros após paralisação e faz 8 km a pé

  • Por Carol Erconlin/Jovem Pan
  • 28/04/2017 14h28
O antes e depois de Carolina Ercolin

Ontem, enquanto meu chefe de reportagem, Patrick Santos, decidia o esquema da cobertura da greve, ponderando os possíveis bloqueios e paralisações no viário, sugeri apontar o olhar para o pedestre. Pensei comigo: é a alternativa mais democrática! Nem todo mundo tem bicicleta, que poderia ser mais eficaz e mais rápida. É uma das únicas transponíveis a qualquer protesto. Apareceu um piquete? Desvia e segue a vida. Se alguém te oferece carona até perto do trabalho, como você conclui o percurso?

Se um paulistano da periferia aceitasse a oferta dos aplicativos como UBER e 99taxi, que deram 20 reais de desconto nas corridas desta sexta-feira, parte do trajeto até o trabalho precisaria ser completado. Como seria, a pé?

O desafio começou às 7:30 com um rápido alongamento e um passo apertado.

Não estava nos planos a garoa. Nem um protesto de estudantes nos primeiros cinco minutos de percurso até a Avenida Paulista, onde fica o estúdio do Jornal da Manhã e meu objetivo final: concluir o percurso em duas horas com um sorriso de dentro da redação.

Ali topo com o Aloísio, que calculava gastar da Chácara do Jockey, quase na divisa do Taboão, até o Campo Belo, em Moema, o mesmo tempo que eu. O corretor me encontrou após me ouvir no ar e fez questão de dizer que também achou na caminhada a alternativa mais eficaz de não ter o dia descontado da folha de pagamento.

Moro relativamente perto da Av. Francisco Morato, próximo ao shopping Butantã. A subida, acreditem, é mais íngreme do que me lembrava. Nota mental: nunca subestime uma ladeira que você viu apenas do carro ou do ônibus. Claro que a próxima entrada ao vivo no Jornal da Manhã ocorreu enquanto eu tentava controlar minha respiração em uma delas.

Até alcançar a ponte Eusébio Matoso, zero ônibus e centenas de pedestres – que tinham como meta chegar à estação Butantã, na Linha 4 Amarela, a única que operava em São Paulo. Ela liga a zona oeste ao centro da Capital, portanto, um ótimo negócio para cumprir, ao menos, parte da viagem.

Ao chegar no cruzamento com a Vital Brasil, muito próximo da Marginal Pinheiros, um bloqueio com faixas e carros de som impedia o trânsito do corredor uma vez mais. Desvio e sigo.

Sobre a ponte, o silêncio sobre os trilhos da linha 9 Esmeralda da CPTM era realmente curioso. Já o caos nas pistas da Marginal, não.

Ingresso na Eusébio Matoso e chego na Rebouças. O funcionário de um estacionamento, vazio, me explica que só chegou no emprego porque usou a moto do vizinho, que foi dispensado do trabalho pelo chefe.

Cruzo um senhor e uma criança com mochila nas costas. Olho de novo. Vou atrás. Cláudio estava, mesmo, levando o Luís, de dois anos, para a escola. Ele carregou o pequeno no colo boa parte do trajeto de meia hora, mas o garoto também precisou enfrentar o dia difícil com as próprias pernas em vários trechos. A creche fica na própria Rebouças e avisou ontem que estaria aberta, para a surpresa de Cláudio. O coletor não estava seguro que as reformas trabalhistas e a da Previdência iriam, de fato, melhorar o Brasil, mas desconfiava da legitimidade da convocação das centrais sindicais.

O diretor da CEI Pinheiros, André Fonseca, me recebeu de avental e touca porque precisou substituir as merendeiras. Entrevistei o pedagogo na cozinha em meio a um cheiro delicioso de molho com carne moída, cardápio do almoço das 3 crianças que conseguiram chegar ao colégio. Tomei um café (ninguém é de ferro) e segui. A pé.

A subida da Rebouças foi comemorada com uma perspectiva da linha de chegada. Mas a Avenida Paulista me recebeu com um cenário não menos paulistano. A garoa.

Na esquina da Augusta, Carla contava a Alberto a dureza que foi chegar até ali. O colega argumentou que duro mesmo seria virar um eterno terceirizado se a reforma trabalhista passasse no Congresso sem nenhuma mudança. Entrei na conversa (jornalistas são bem abelhudos às vezes) e perguntei o que eles pretendiam fazer em relação ao impasse. “Ai moça, sinceramente, o que a gente pode fazer?”, disse Carla. “Eu vou encher a caixa de email do deputado que eu elegi”, garantiu Alberto”. Eu sorri. E segui. 

No centro nervoso e financeiro da cidade, a vida já parecia normal. Mas já eram 9:45 e meu deadline tinha ido para o espaço. Ainda restavam 2 km até a Jovem Pan.

Finalizei no programa seguinte, o Morning Show. Até o estúdio, onde contei minha trajetória, foram 12.156 passos, 8,4km e algumas lições.