Tragédia do voo 1907 da Gol completa 10 anos e sentimento ainda é de impunidade

  • Por Jovem Pan
  • 29/09/2016 06h58
Sebastião Moreira/Estadão Conteúdo Sebastião Moreira/Estadão Conteúdo Acidente em voo 1907 da Gol completa 10 anos - AE

A tragédia do voo 1907 da Gol, que caiu na Floresta Amazônica após uma colisão com um jato da Embraer, completa 10 anos nesta quinta-feira (29).

Uma década após o desastre, o sentimento entre os familiares ainda é o de impunidade. Apesar das penas impostas pela Justiça brasileira, os dois pilotos americanos apontados como culpados pelo desastre seguem em liberdade e até trabalham em atividades ligadas à aviação.

Confira o especial sobre os 10 anos do acidente na reportagem de Vitor Brown:

Uma das maiores tragédias da história da aviação brasileira completa 10 anos, enquanto os principais responsáveis pelo acidente continuam sem punição.

A queda do Boeing 737, da companhia aérea Gol, em uma região de mata fechada da floresta Amazônica, chocou os brasileiros em 29 de setembro de 2006.

O avião, que partiu de Manaus com destino ao Rio de Janeiro, colidiu no ar com o Jato Legacy-600, da Embraer, que saiu de São José dos Campos, no interior de São Paulo, e iria para os Estados Unidos.

A batida ocorreu a 37 mil pés de altitude, no norte de Mato Grosso, na região do município de Peixoto de Azevedo.

O Boeing caiu, mas o Legacy conseguiu pousar cerca de 20 minutos depois. As 154 pessoas, entre passageiros e tripulantes, que estavam no avião da Gol morreram na hora.

De acordo com as investigações, os dois pilotos do jato Legacy teriam desligado o “transponder”, que é o aparelho que informa aos controladores de voo a posição exata das aeronaves, em uma manobra considerada inapropriada.

Os americanos Jan Paul Paladino e Joseph Lepore foram condenados pela Justiça brasileira pelo crime atentado contra a segurança do transporte aéreo.

A pena, de 3 anos de prisão, deverá ser cumprida em regime aberto.

A defesa tentou reduzir a punição para prestação de serviços sociais, mas o pedido foi negado e eles poderão escolher se cumprem a pena no Brasil ou nos Estados Unidos.

O advogado que representa os familiares das vítimas, Rogério Botelho, considerou as penalidades muito pequenas, diante da dimensão da tragédia. “É uma pena muito branda. Porque é um delito considerado como crime culposo. A sensação da família é que, além da pena ser muito branda, há uma expectativa muito pequena de cumprimento desta pena ou falta de efetividade no cumprimento, porque o regime é aberto. Chama atenção 154 mortos e uma pena de três anos, um mês e dez dias”, disse.

Segundo o advogado Rogério Botelho, os dois pilotos ainda precisam informar à Justiça brasileira se pretendem cumprir a pena no Brasil ou nos Estados Unidos.

Caso escolham permanecer em território americano, a transferência dos processos e a tradução dos documentos envolvidos ainda levaria um bom tempo.

Mesmo assim, as chances de que os pilotos sejam punidos nos Estados Unidos são maiores do que no Brasil. “Nós acreditamos que a pena será cumprida porque os Estados Unidos têm uma tradição de cumprimento das leis”, afirmou Botelho.

Os quatro contraladores de voo, que monitoravam as aeronaves foram absolvidos no caso.

De acordo com o relatório final do Cenipa, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, os principais fatores responsável pelo acidente foram o pouco conhecimento dos pilotos sobre a aeronave, a falta de planejamento de voo e a falta de comunicação interna.

Após a tragédia, os dispositivos de monitoramento de voos foram aprimorados e, hoje, o controle do tráfego aéreo está mais rígido.

O diretor de segurança de voo do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Mateus Ghisleni, acredita que um desastre como o ocorrido em 2006 provavelmente não aconteceria hoje.

“Houve uma melhoria no sistema de tráfego aéreo, cobertura radar, comunicação entre pilotos e controladores de voo. Não tem como mensurar o quanto a probabilidade de acontecer diminuiu, mas com certaza, com as melhorias, foi possível sanar algumas dificuldades que nós tínhamos aqui no Brasil”, explicou.

O especialista em segurança de voo, Mateus Ghisleni, acrescentou ainda que, apesar do aperfeiçoamento tecnológico, o fator humano ainda é a principal causa de acidente aéreos.

Após dez anos, a maior parte das famílias das 154 vítimas assinou um acordo com a companhia aérea Gol e recebeu indenizações. Os valores variam de R$ 100 mil a R$ 1 milhão.

O jato Legacy-600 continua voando.

Atualmente, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, continuam vivendo nos Estados Unidos, enquanto aguardam a decisão sobre o cumprimento das penas.

O primeiro segue exercendo a profissão de piloto, enquanto o outro trabalha em funções administrativas, também ligadas à aviação.

Confira o comentário completo de Thiago Uberreich: