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Saúde

Remédios para diabetes: benefícios do uso responsável e riscos da automedicação

Medicamentos modernos como os inibidores de SGLT2 e os análogos de GLP-1 trazem grandes avanços no tratamento do diabetes tipo 2, mas exigem acompanhamento médico rigoroso

Felipe Cerqueira

Mulher diabética de alto ângulo, verificando seu nível de glicose
2150756373 Freepik

Os inibidores de SGLT2, como Jardiance (empagliflozina) e Forxiga (dapagliflozina), e os análogos de GLP-1, como Victoza e Saxenda (liraglutida), Ozempic, Wegovy e Rybelsus (semaglutida), são medicamentos usados no tratamento do diabetes tipo 2 que atuam de maneira diferente dos antidiabéticos tradicionais.

Como agem os inibidores de SGLT2

Para entender o funcionamento dos inibidores de SGLT2, é importante saber que os rins filtram o sangue para eliminar substâncias indesejadas e reter as úteis. Durante esse processo, a glicose é inicialmente direcionada para a urina, mas uma proteína chamada SGLT2 (cotransportador de sódio-glicose 2) a reabsorve para o sangue. Os medicamentos inibidores de SGLT2 bloqueiam essa proteína, permitindo que a glicose seja eliminada pela urina e ajudando a reduzir o nível de açúcar no sangue.

Além do controle glicêmico, esses medicamentos oferecem outros benefícios, como a redução do risco de hospitalização por insuficiência cardíaca em pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. Também protegem os rins em pessoas com doença renal crônica, podendo adiar a necessidade de diálise e transplante. Como 1 grama de glicose tem 4 calorias, a eliminação da glicose pela urina contribui para a perda de peso, efeito benéfico para muitos diabéticos. Por terem leve ação diurética, também ajudam a controlar a pressão arterial.

Estudos clínicos mostraram que a empagliflozina reduz a mortalidade geral e cardiovascular em pessoas com diabetes e doença cardiovascular. A dapagliflozina teve efeito semelhante em pacientes com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca.

O papel dos análogos de GLP-1 e GIP

Os análogos de GLP-1 (como a liraglutida e a semaglutida) mimetizam o hormônio natural GLP-1, que regula a glicose no sangue e promove a saciedade. Já os análogos duplos, como a tirzepatida, associam o GLP-1 ao GIP, outro hormônio que potencializa os efeitos metabólicos, favorecendo maior perda de peso e controle glicêmico.

Esses medicamentos atuam estimulando a produção de insulina, reduzindo o glucagon (que eleva o açúcar no sangue), retardando o esvaziamento gástrico e promovendo saciedade. O GIP também atua no pâncreas e no metabolismo de gordura, especialmente em jejum.

Assim como os inibidores de SGLT2, os análogos de GLP-1 e os duplos mostraram benefícios adicionais: podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares e proteger os rins em pacientes com diabetes, além de melhorar quadros de apneia do sono em pessoas com obesidade. Pesquisas ainda em andamento investigam seu possível papel protetor contra o Alzheimer.

Automedicação pode trazer sérios riscos

Apesar de serem medicamentos modernos e eficazes, esses remédios devem ser utilizados com supervisão médica. Entre os efeitos adversos dos inibidores de SGLT2 estão infecções urinárias e genitais (como candidíase), perda de líquidos com risco de desidratação, pressão baixa e até desmaios, especialmente em idosos. A associação inadequada com insulina pode provocar cetoacidose, uma condição grave que pode levar ao coma ou à morte.

No caso dos análogos de GLP-1, os efeitos colaterais mais comuns no início do tratamento são náuseas, vômitos, constipação ou diarreia. As versões injetáveis (exceto Rybelsus, que é oral) podem causar reações no local da aplicação. O uso indevido desses medicamentos, muitas vezes com finalidade estética, levou a Anvisa a exigir receita controlada para sua aquisição.

Responsabilidade médica é essencial no tratamento

Os inibidores de SGLT2, os análogos de GLP-1 e os análogos duplos representam avanços significativos no controle do diabetes tipo 2 e no cuidado com a saúde cardiovascular e renal. No entanto, são indicados para tratar doenças sérias, e não devem ser usados como ferramentas de emagrecimento fora de contexto clínico. O acompanhamento médico é indispensável para garantir resultados seguros e eficazes.

Marcio C. Mancini – CRM 57.605 / RQE 13.936
Chefe do Grupo de Obesidade da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do HCFMUSP

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