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Saúde

Preservação da fertilidade trans: a decisão que precisa ser tomada antes da hormonização

Para pessoas trans, o desejo de ter filhos biológicos pode existir – mas a oportunidade de preservar essa possibilidade depende de uma decisão que precisa acontecer cedo, muitas vezes antes do início da hormonização

Brazil Health

Mão segura bandeira LGBT
Mão segura bandeira LGBT Magnific

O cuidado com a saúde de pessoas trans evoluiu nos últimos anos, com maior acesso a terapias hormonais e cirurgias de afirmação de gênero.

Nesse processo, um tema ainda pouco discutido é a fertilidade.

Terapias hormonais podem impactar diretamente a produção de óvulos e espermatozoides. Em alguns casos, esse efeito pode ser parcial. Em outros, pode se tornar permanente ao longo do tempo.

Por isso, a preservação da fertilidade precisa ser abordada antes do início da hormonização.

Uma janela que muitos desconhecem

O início da terapia hormonal é um momento importante na transição de gênero. No entanto, ele também pode marcar o começo de mudanças biológicas que afetam a capacidade reprodutiva.

Em pessoas designadas do sexo masculino ao nascimento, o uso de estrogênios e bloqueadores hormonais pode reduzir a produção de espermatozoides. Já em pessoas designadas do sexo feminino ao nascimento, a testosterona pode interferir na função ovariana e na qualidade dos óvulos.

Embora haja casos de recuperação parcial após suspensão do tratamento, essa resposta não é garantida. Por isso, o ideal é discutir a preservação antes de iniciar a terapia.

Desejo existe – informação nem sempre

Estudos mostram que muitas pessoas trans têm desejo de ter filhos biológicos. No entanto, esse tema frequentemente não é abordado de forma adequada durante o acompanhamento inicial.

Falta de informação, tempo reduzido para decisão, barreiras de acesso e até desconforto na abordagem do tema contribuem para que a preservação da fertilidade não seja considerada.

Isso cria um descompasso entre o desejo reprodutivo e a possibilidade real de concretizá-lo no futuro.

Opções existem, mas o acesso ainda é desigual

As principais estratégias de preservação são semelhantes às utilizadas em outros contextos. Para pessoas com produção de espermatozoides, o congelamento de sêmen é uma opção mais simples e rápida.

Para quem possui ovários, o congelamento de óvulos é uma alternativa, embora exija estimulação hormonal e coleta, o que pode ser mais complexo do ponto de vista físico e emocional.

Também é possível considerar o congelamento de embriões, dependendo do contexto e do planejamento reprodutivo.

Apesar dessas possibilidades, o acesso ainda é limitado em muitos cenários, seja por custo, disponibilidade de serviços ou falta de preparo das equipes.

A preservação da fertilidade trans envolve não apenas técnica, mas também acolhimento. É fundamental que o cuidado seja conduzido por equipes preparadas, com escuta qualificada e respeito às particularidades de cada pessoa.

A decisão de iniciar a hormonização é central no processo de afirmação de gênero. Incluir a fertilidade nessa conversa não significa atrasar esse caminho, mas ampliá-lo.

Porque, quando o assunto é futuro, informação no momento certo faz toda a diferença.

Dra. Stephanie Majer
CRM/SP 174028 | RQE 393260
Ginecologista
Graduada em Medicina pelo Centro Universitário São Camilo
Especialização em Reprodução Humana no Hospital Pérola Byington
Especialista em Reprodução Assistida na ENNE Clinic
Membro da Brazil Health