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Saúde

TDAH em adultos: o diagnóstico que chegou tarde

Cada vez mais adultos descobrem que ansiedade, desorganização e sensação constante de inadequação podem estar ligadas a um TDAH nunca diagnosticado durante a infância

Brazil Health

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Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento Monica Melton/Unsplash

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento, de origem predominantemente genética e neurológica, que afeta entre 5% e 8% da população mundial. Durante muitos anos, foi considerado uma condição exclusivamente infantil. A partir da década de 1990, pesquisas demonstraram que o transtorno frequentemente persiste ao longo da vida e que, para muitos indivíduos, o diagnóstico só ocorre depois dos 30, 40 ou até 50 anos.

A publicação da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), em 2013, consolidou esse entendimento ao incluir critérios específicos para o diagnóstico do TDAH em adultos.

O TDAH ao longo da vida

O transtorno resulta de alterações neurobiológicas que omprometem habilidades relacionadas à atenção, ao controle dos impulsos e à autorregulação. Os sintomas precisam estar presentes antes dos
12 anos de idade.

Estudos mostram que cerca de 80% das crianças diagnosticadas continuam apresentando sintomas na adolescência. Desses adolescentes, entre 50% e 65% mantêm manifestações clínicas significativas na vida adulta.

Outro aspecto relevante é a elevada presença de comorbidades. Entre 50% e 87% das pessoas com TDAH apresentam pelo menos outro transtorno psiquiátrico associado, como ansiedade, depressão, transtorno bipolar ou uso problemático de substâncias. Pesquisas indicam ainda que o tratamento adequado na infância reduz o risco dessas condições na vida adulta.

Sintomas e prejuízos funcionais na vida adulta

Segundo Russell Barkley, um dos principais pesquisadores do tema, o TDAH pode ser compreendido como um transtorno da autorregulação.

As dificuldades vão muito além da atenção. O transtorno afeta funções executivas fundamentais, como planejamento, organização, gerenciamento do tempo, priorização de tarefas, tomada de decisões, controle de impulsos e regulação emocional.

A desregulação emocional, embora não faça parte dos critérios diagnósticos, é frequentemente observada na prática clínica. Pode se manifestar por baixa tolerância à frustração, irritabilidade, impaciência e dificuldade para lidar com emoções intensas.

Na vida adulta, a hiperatividade costuma ser menos visível, parecendo como inquietação interna, pensamentos acelerados, dificuldade para relaxar ou necessidade constante de estar ocupado.

Já a desatenção costuma surgir no cotidiano por meio de esquecimentos, perda de objetos, procrastinação, dificuldades de organização e sensação constante de falta de tempo.

Os prejuízos podem atingir diversas áreas da vida, como carreira, relacionamentos, finanças, direção de veículos e cuidados com a saúde. A intensidade dos sintomas varia entre os indivíduos, mas é necessário que exista impacto significativo em mais de um contexto da vida.

“Mas por que sou tão diferente das outras pessoas?”

O reconhecimento tardio do transtorno tornou-se cada vez mais comum. Muitos adultos procuram ajuda inicialmente por ansiedade, depressão, exaustão, baixa autoestima ou dificuldades profissionais e
descobrem, durante a avaliação, um TDAH nunca identificado.

“Como ninguém percebeu isso antes?” é uma das perguntas mais frequentes após o diagnóstico.

Antes de compreenderem a origem de suas dificuldades, muitos convivem durante anos com a sensação de inadequação. Frequentemente são vistos como distraídos, desorganizados, preguiçosos ou impulsivos. Apesar do esforço constante, enfrentam dificuldades para manter a regularidade em projetos, cumprir prazos e concluir tarefas.

Não são raros os relatos de pessoas que cresceram ouvindo frases como: “Você é inteligente, mas não se esforça” ou “Você nunca termina o que começa”. Com o tempo, essas mensagens podem ser
incorporadas à forma como enxergam a si mesmas.

Por isso, o diagnóstico costuma trazer sentimentos ambivalentes. Há alívio por finalmente compreender uma trajetória marcada por desafios persistentes, mas também tristeza e frustração pelo tempo vivido sem respostas.

O desafio do diagnóstico

A popularização do tema nas redes sociais aumentou o interesse pelo TDAH e contribuiu para a conscientização. Ao mesmo tempo, exige cautela.

Dificuldades de concentração podem estar relacionadas a ansiedade, estresse, privação de sono, sobrecarga de trabalho ou excesso de estímulos digitais. Por isso, a avaliação deve sempre ser realizada
por profissionais capacitados.

Tratamento e novas possibilidades

Embora o TDAH não tenha cura, existem tratamentos eficazes capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida. A abordagem pode incluir psicoterapia, psicoeducação, estratégias de organização e, quando necessário, tratamento medicamentoso.

A psicoterapia tem papel importante ao ajudar o indivíduo a compreender seu funcionamento, desenvolver recursos para lidar com os desafios do cotidiano e ressignificar experiências marcadas por críticas, frustrações e sentimentos de inadequação.

Mudanças de hábitos também fazem parte do tratamento, incluindo rotinas estruturadas, melhora do sono, atividade física regular e uso de ferramentas de organização.

Um diagnóstico que traz respostas

Para quem passou anos tentando entender suas dificuldades, receber um diagnóstico adequado pode representar muito mais do que um nome para os sintomas. Pode ser a oportunidade de reconstruir a própria história com menos culpa, menos autocrítica e mais compaixão.

Compreender o próprio funcionamento não muda o passado, mas pode transformar profundamente a forma de viver o presente e planejar o futuro.

Marta Lenci, psicóloga clínica, CRP 06/116.553

Formada pela Universidade de São Paulo, com especialização em Terapia Cognitiva Comportamental, pós-graduação em Terapia do Esquema.