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Cristiano Vilela

As mulheres para além da polarização 

O resultado não pode ser dissociado das mudanças introduzidas na legislação eleitoral ao longo dos últimos anos

Cristiano Vilela

Fachada do palácio do Congresso Nacional
Palácio do Congresso Nacional na Esplanada dos Ministérios em Brasília Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em meio à grande disputa entre esquerda e direita nas eleições de 2026, há um resultado que merece ser reconhecido para além da polarização: o Congresso Nacional terá, a partir de 2027, a maior bancada feminina de sua história. Na Câmara dos Deputados, as mulheres passarão de 90 para 109 cadeiras, um crescimento de 21,1%, representando 21,2% dos 513 parlamentares. No Senado, 12 mulheres foram eleitas para as 54 vagas em disputa, o maior número já registrado em uma única eleição desde a redemocratização, elevando a bancada feminina para 18 integrantes, em um universo de 81 senadores.

O resultado não pode ser dissociado das mudanças introduzidas na legislação eleitoral ao longo dos últimos anos. Os partidos são obrigados a reservar pelo menos 30% das candidaturas proporcionais para mulheres e, igualmente, a destinar a elas no mínimo 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda, observada a proporção de candidaturas. Há ainda a regra que atribui peso em dobro aos votos dados a mulheres e pessoas negras eleitas no cálculo da distribuição futura dos fundos partidário e eleitoral, vigente até 2030. Em outras palavras, o sistema passou a criar não apenas uma obrigação formal de lançar mulheres candidatas, mas também mecanismos de incentivo para que os partidos tenham interesse efetivo em elegê-las.

Os números de 2026 sugerem que essas políticas legislativas produziram efeitos concretos. Mais do que um simples resultado das urnas, trata-se de um avanço da própria democracia brasileira. A presença feminina deixa, gradualmente, de ser episódica para se transformar em uma realidade cada vez mais consolidada na política nacional. O processo ainda ocorre em ritmo mais lento do que seria desejável — as mulheres continuam sendo minoria nas duas Casas —, mas os números revelam uma trajetória consistente de crescimento. E, uma vez que esse movimento demonstra resultados concretos, é razoável esperar que a representação feminina continue avançando nas próximas eleições.

Talvez o aspecto mais significativo desse avanço esteja justamente em seu caráter transversal. A presença feminina no Congresso não pertence a uma única corrente ideológica, partido ou campo político. Mulheres foram eleitas por diferentes forças e representam visões distintas sobre economia, costumes, segurança pública, direitos sociais e o papel do Estado. Isso demonstra que a participação feminina não pode ser compreendida como bandeira exclusiva de determinado grupo político, mas como uma conquista democrática que atravessa diferentes setores da sociedade. A mulher que chega ao Parlamento não deixa de ter suas convicções políticas; ao contrário, leva para a vida pública a mesma pluralidade de opiniões que caracteriza o eleitorado brasileiro. O crescimento de sua representação, portanto, não significa uniformização ideológica, mas a ampliação da própria diversidade política do Congresso.

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