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Eliseu Caetano

EUA avaliam redução de presença militar no Golfo após guerra com o Irã

Exército norte-americano já realizou mais de 13 mil ataques contra alvos iranianos

Eliseu Caetano

Pete Hegseth
Desde o início do ano, Washington reforçou significativamente essa presença, enviando navios de guerra, caças, sistemas de defesa aérea e outros equipamentos para proteger as forças americanas e sustentar as operações contra o Irã Andrew Harnik / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

O Pentágono começou a avaliar uma possível redução e reestruturação da presença militar americana no Oriente Médio depois da guerra com o Irã. A informação foi revelada pelo Washington Post, que ouviu autoridades e pessoas familiarizadas com as discussões.

A análise pode levar a uma das mudanças mais importantes na estratégia militar americana na região em décadas. Um dos principais pontos em discussão é justamente se os Estados Unidos devem manter grandes contingentes e bases no Golfo Pérsico, onde instalações militares americanas foram repetidamente atingidas por mísseis e drones iranianos durante o conflito.

O Comando Central dos Estados Unidos, o CENTCOM, mantém normalmente cerca de 40 mil militares distribuídos por quase 20 instalações, numa faixa de aproximadamente 2.400 quilômetros, da Jordânia até Omã.

Desde o início do ano, Washington reforçou significativamente essa presença, enviando navios de guerra, caças, sistemas de defesa aérea e outros equipamentos para proteger as forças americanas e sustentar as operações contra o Irã.

Os Estados Unidos já realizaram mais de 13 mil ataques contra alvos iranianos. Mas o conflito também expôs o custo e a vulnerabilidade dessa estratégia. Antes mesmo do início da guerra, em fevereiro, o CENTCOM já havia retirado militares de várias instalações consideradas vulneráveis a ataques de mísseis e drones. Parte dessas mudanças pode se tornar permanente.

Durante o conflito, mais de 200 instalações americanas foram danificadas ou destruídas. Em março, seis militares americanos morreram em um ataque contra Port Shuaiba, no Kuwait. Outro ataque iraniano contra a Jordânia matou quatro militares americanos no mês passado. A defesa dessas instalações também pressionou os estoques militares dos Estados Unidos. Mais de mil interceptadores sofisticados de defesa aérea foram utilizados durante o conflito, incluindo mísseis dos sistemas Patriot e THAAD.

Agora, uma das possibilidades em análise é deslocar parte das forças que estão no Golfo para posições mais a oeste, incluindo Jordânia, Israel e a costa do Mar Vermelho na Arábia Saudita. O almirante Bradley Cooper, chefe do CENTCOM, participa das discussões e apoia a avaliação sobre um possível deslocamento de tropas para longe do Golfo Pérsico.

A mudança poderia diminuir a exposição das forças americanas, mas não eliminaria completamente o risco. O Irã já demonstrou capacidade de atingir alvos mais distantes, inclusive na Jordânia e em Israel. Uma eventual redução também teria impacto direto sobre aliados históricos de Washington. O Bahrein abriga o quartel-general da Quinta Frota da Marinha americana, enquanto o Kuwait recebe importantes forças do Exército e da Força Aérea.

Durante décadas, os países do Golfo construíram parte de sua estratégia de defesa em torno da presença militar americana. Uma retirada significativa poderia obrigar esses governos a ampliar rapidamente suas próprias capacidades militares ou buscar novas parcerias de segurança – um processo que poderia levar meses ou até anos.

Existe ainda uma discussão dentro do próprio governo Trump sobre qual deve ser a prioridade militar dos Estados Unidos. Uma ala defende a manutenção de compromissos fortes no Oriente Médio, enquanto outra considera necessário reduzir a presença na região para concentrar recursos na defesa do território americano e na contenção de adversários estratégicos maiores, principalmente a China.

Israel aparece como outra possibilidade de reposicionamento. Há propostas para transferir mais equipamentos e tropas americanas para bases israelenses, incluindo a base aérea de Ovda. Mas a ideia enfrenta resistência dentro da própria administração, inclusive por preocupações de contrainteligência relacionadas à possibilidade de espionagem israelense.

O custo financeiro também pesa. O Pentágono estima que a guerra poderá custar aproximadamente US$ 37,5 bilhões até o fim de setembro. Esse valor, porém, não inclui a reconstrução das bases atingidas. Uma estimativa independente calculou em aproximadamente US$ 5 bilhões apenas o custo para reparar instalações americanas atacadas durante o conflito.

É justamente nesse ponto que a discussão ganha importância: reconstruir as bases exatamente onde estavam ou aproveitar a destruição provocada pela guerra para redesenhar toda a presença militar americana no Oriente Médio.

A avaliação está sendo conduzida pelo escritório de políticas do Pentágono, com participação do Estado-Maior Conjunto e do CENTCOM. Até agora, porém, nenhuma decisão definitiva foi tomada. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, ainda não determinou uma revisão formal da presença militar americana na região. O processo atual é tratado dentro do Pentágono como um planejamento preventivo que poderá orientar as decisões sobre quais bases serão reconstruídas e onde as forças americanas ficarão no futuro.

Qualquer mudança permanente ainda dependerá da aprovação dos níveis mais altos do governo Trump. A guerra, portanto, pode deixar uma consequência estratégica que vai muito além dos combates contra o Irã: depois de décadas usando grandes bases no Golfo Pérsico como demonstração do poder militar americano, os Estados Unidos agora discutem se manter dezenas de milhares de soldados e equipamentos tão próximos do território iraniano deixou de ser apenas uma vantagem — e passou também a representar uma vulnerabilidade.