Trump amplia ofensiva contra políticas ambientais da Califórnia
A disputa entre o governo Donald Trump e a Califórnia ganhou uma nova dimensão. A administração federal está usando diferentes órgãos do governo para tentar enfraquecer políticas ambientais adotadas pelo estado, especialmente medidas voltadas para reduzir o uso de combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes de energia limpa.
Segundo levantamento publicado pelo The New York Times, pelo menos seis órgãos federais foram envolvidos em ações que podem beneficiar a indústria de petróleo e gás ou dificultar e cancelar projetos de energia renovável na Califórnia. O confronto coloca Washington contra um dos estados americanos mais agressivos na adoção de políticas de combate às mudanças climáticas.
E não se trata apenas de uma discussão ambiental. A briga envolve energia, investimentos, empregos, preço da eletricidade e até o poder que um estado tem para estabelecer suas próprias regras.
A Califórnia possui algumas das políticas ambientais mais rigorosas dos Estados Unidos. O estado estabeleceu metas para ampliar o uso de energia limpa, reduzir emissões de gases de efeito estufa e diminuir a dependência de combustíveis fósseis. O governo Trump segue uma direção completamente diferente.
Desde o início do segundo mandato, o presidente colocou o aumento da produção de petróleo, gás e outras fontes tradicionais de energia no centro da política energética americana. Uma das ordens executivas de Trump determina justamente a ampliação da produção de energia e a redução de barreiras regulatórias para o setor. Na Califórnia, essa política federal bate de frente com decisões tomadas pelo governo estadual.
Um dos principais exemplos é a energia eólica offshore. A administração Trump já cancelou ou dificultou projetos de parques eólicos no litoral dos Estados Unidos. Em junho, o governo anunciou um acordo de US$ 765 milhões para que a empresa Invenergy abandonasse quatro contratos de energia eólica offshore, incluindo um projeto na costa da Califórnia. A empresa redirecionaria investimentos para outras fontes, incluindo gás natural e energia geotérmica.
Em agosto, outro acordo aumentou ainda mais a conta. A empresa RWE concordou em abandonar projetos de energia eólica offshore em desenvolvimento na costa de Nova York, Califórnia e Louisiana. O governo americano pagou US$ 1,22 bilhão pelo encerramento dos contratos.
Os projetos poderiam gerar aproximadamente 7 gigawatts de eletricidade, energia suficiente para abastecer mais de 5 milhões de residências. Para o governo Trump, a justificativa é energética e econômica: a administração questiona a confiabilidade da energia eólica e defende uma expansão da produção de combustíveis fósseis. Para a Califórnia, porém, o problema é que Washington está interferindo diretamente em uma estratégia energética definida pelo próprio estado.
A disputa não termina nos parques eólicos. Em agosto, um juiz federal também decidiu que um oleoduto localizado na costa da Califórnia poderia continuar funcionando, apesar da oposição das autoridades estaduais.
O governo Trump havia utilizado poderes previstos na Defense Production Act, a lei federal de produção de defesa, para determinar a reabertura do oleoduto, argumentando que a medida era necessária diante das necessidades energéticas do país durante a guerra com o Irã. A Califórnia contestou a decisão, mas o juiz concluiu que a determinação federal prevalecia sobre as regras estaduais que entravam em conflito com ela.
É justamente esse tipo de conflito que ajuda a explicar a importância da ofensiva federal. A Califórnia não é um estado qualquer. É a maior economia estadual dos Estados Unidos e também um dos maiores mercados consumidores do país.
Quando Sacramento estabelece regras mais rígidas para carros, combustíveis, energia ou emissões, empresas que atuam em todo o território americano precisam decidir se vão seguir apenas as regras federais ou também se adaptar às exigências californianas. Por isso, uma mudança na Califórnia pode acabar influenciando o mercado americano inteiro.
O estado também continua criando novas regras ambientais mesmo diante da pressão de Washington. Nesta semana, por exemplo, a Califórnia aprovou regras de eficiência energética para pneus de reposição. A medida pretende reduzir o consumo de combustível e as emissões dos veículos.
A primeira etapa começa em 2029, com regras ainda mais rígidas previstas para 2033. Segundo estimativa apresentada pelos defensores da medida, ela poderia economizar quase US$ 1 bilhão por ano para os motoristas.
Isso mostra que a disputa está longe de terminar. Na prática, Trump tenta aumentar o espaço para petróleo e gás e reduzir o apoio federal a projetos de energia limpa. A Califórnia, por outro lado, tenta manter sua própria estratégia de transição energética.
Existe uma consequência que ultrapassa as fronteiras do estado. Se o governo federal conseguir impedir grandes projetos de energia renovável na Califórnia, os investimentos podem migrar para outras fontes, principalmente petróleo, gás natural e outras formas de geração de energia. Mas, se a Califórnia conseguir manter suas regras, o estado continuará funcionando como um enorme laboratório de políticas ambientais dentro dos Estados Unidos.
A disputa também acontece em um momento de forte crescimento da demanda por eletricidade no país. Grandes centros de processamento de dados, inteligência artificial, indústria e eletrificação dos transportes estão aumentando a necessidade de energia.
Isso coloca o governo Trump diante de uma questão prática: como produzir mais eletricidade rapidamente e manter os preços sob controle? A administração aposta principalmente no aumento da produção de combustíveis tradicionais. A Califórnia aposta em uma combinação de energia solar, eólica, baterias e outras fontes de menor emissão.
O conflito entre essas duas visões pode definir não apenas a política ambiental americana, mas também quais fontes de energia receberão bilhões de dólares em investimentos nos próximos anos. Para o consumidor, a discussão é bastante concreta.
No fim, a escolha entre petróleo, gás, energia solar e eólica não fica apenas no debate político. Ela pode aparecer na conta de luz, no preço dos combustíveis, no custo dos carros, nos investimentos e nos empregos criados no setor de energia.
A batalha entre Trump e a Califórnia, portanto, é muito maior do que uma briga entre Washington e Sacramento. É uma disputa sobre quem decide a política energética dos Estados Unidos e qual será a matriz de energia do país nos próximos anos.
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