Ferida social impede Tianjin de “virar a página” um mês depois de explosão

  • Por Agencia EFE
  • 12/09/2015 15h58

Antonio Broto

Tianjin (China), 12 set (EFE).- Um mês depois que em Tianjin aconteceu um desastre que tirou a vida de mais de 160 pessoas, essa cidade do norte da China tenta retornar à normalidade, mas centenas de feridos hospitalizados, dezenas de edifícios em ruínas e o medo de muitos mostram que não será uma tarefa fácil.

Em 12 de agosto, explosões em um armazém de produtos tóxicos no porto causou um desastre que 30 dias depois continua evidente em uma das maiores cidades chinesas.

Isso pode ser ainda mais evidente com a forte presença de controles de polícia nas imediações do “marco zero”, onde segue sendo vistos gigantescos contêineres deformados pelas explosões e uma fumaça esbranquiçada.

“Já não comemos peixe e quando chove não saímos de casa”, assegurou à Agência Efe um taxista da cidade, de sobrenome Li e que lamenta que os estrangeiros só vão a Tianjin quando há desgraças para contar.

As áreas residenciais próximas ao local das explosões também mostram a força do desastre, como a urbanização Vantone, que um mês depois é um local deserto, com exceção de cerca de quantos operários com capacete militar e antigos residentes que se reúnem ali para compartilhar queixas.

“Nenhum advogado quer nos representar, o governo nos oferece uma indenização sem querer negociar e há alguns, os que trabalham como funcionários, que se não aceitam as condições, são ameaçados com demissões”, contou à Efe Wang, uma das afetadas.

O líder do coletivo vizinho, Li Jie, mostra uma das casas mais danificadas: seu interior está quase igual que em 12 de agosto, com chão, sofás e camas cobertos por vidros das janelas estilhaçadas por todo o apartamento.

A proprietária, Xu Nini, mostra a geladeira, infestada de vermes. Afetada por síndrome pós-traumática diz parecer não ter forças para limpar a casa e cada vez que ouve um barulho, entra em pânico. Outros asseguram que sentem fortes dores de cabeça.

Nem Xu e nem a maioria dos outros moradores querem falar muito sobre a noite do acidente. “Estávamos muito nervosos e não nos lembramos de muito, o importante agora é o presente, receber indenizações”, disseram.

Eles lembram que as casas tremeram e pensando que estava ocorrendo um terremoto, alguns se refugiaram com toda a família no banheiro, enquanto outros saíram às ruas, onde viram vizinhos ensanguentados pelos cortes dos vidros.

Pior ocorreu com os moraores de outra urbanização mais próxima ao lugar da deflagração e que Wu Xiangyu mostra desde o alto de seu bloco.

“Muita gente morreu ali”, assegurou. Wu Xiangyu acredita que os números oficiais de vítimas são menores do que os reais. “Para mim morreu entre 400 e 500”.

Aqueles que sofreram danos em suas casas ainda se atrevem a falar com a imprensa estrangeira, mas denunciam que os meios de comunicação chineses estão proibidos de falar com eles. Pior ainda é a situação para os familiares de feridos e mortos, que não podem falar com qualquer imprensa.

As autoridades da zona têm medo de que os afetados acabem sendo parte de um enorme coletivo nacional de peticionários, aquelas pessoas que por uma ou outra razão se sentem maltratadas pelo regime e acabam recebendo de Pequim um tratamento semelhante ao de dissidentes políticos.

Também segue preocupando a poluição gerada pelo acidente, já que o local da explosão armazenava 3 mil toneladas de produtos muito tóxicos, e não foi informado sobre o que foi feito com a água e a terra altamente contaminadas que foram tiradas dali.

“Na zona da explosão ainda há ácido cianídrico, e também é possível detectar cianureto na água, tanto na subterrânea como na do mar”, disse à Agência Efe o escritor Ma Jun, um dos grandes nomes da China em temas de proteção meio ambiental.

“A explosão ocorreu por falta de suficientes conhecimentos e má gestão por parte das companhias que administram produtos químicos perigosos”, lembrou.

O governo, enquanto isso, tenta aplacar medos e descontentamentos com grandes gestos propagandísticos e hoje anunciou a concessão de medalhas de ouro de honra ao mérito a 24 bombeiros “que se sacrificaram pela defesa nacional”.

Junto às medalhas, como as que o presidente Xi Jinping entregou há uma semana aos veteranos da Segunda Guerra Mundial, foi anunciado que os mortos serão declarados “mártires” e será erguido um monumento em homenagem aos mesmos.

Grandes cartazes na estrada que vai do centro de Tianjin ao porto mostram os rostos dos 99 bombeiros mortos no acidente: o governo procura lembrar o fato como se tratasse de uma batalha militar, enquanto muitos dos afetados começam a se sentir esquecidos um mês depois. EFE

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