As mulheres para além da polarização
Em meio à grande disputa entre esquerda e direita nas eleições de 2026, há um resultado que merece ser reconhecido para além da polarização: o Congresso Nacional terá, a partir de 2027, a maior bancada feminina de sua história. Na Câmara dos Deputados, as mulheres passarão de 90 para 109 cadeiras, um crescimento de 21,1%, representando 21,2% dos 513 parlamentares. No Senado, 12 mulheres foram eleitas para as 54 vagas em disputa, o maior número já registrado em uma única eleição desde a redemocratização, elevando a bancada feminina para 18 integrantes, em um universo de 81 senadores.
O resultado não pode ser dissociado das mudanças introduzidas na legislação eleitoral ao longo dos últimos anos. Os partidos são obrigados a reservar pelo menos 30% das candidaturas proporcionais para mulheres e, igualmente, a destinar a elas no mínimo 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda, observada a proporção de candidaturas. Há ainda a regra que atribui peso em dobro aos votos dados a mulheres e pessoas negras eleitas no cálculo da distribuição futura dos fundos partidário e eleitoral, vigente até 2030. Em outras palavras, o sistema passou a criar não apenas uma obrigação formal de lançar mulheres candidatas, mas também mecanismos de incentivo para que os partidos tenham interesse efetivo em elegê-las.
Os números de 2026 sugerem que essas políticas legislativas produziram efeitos concretos. Mais do que um simples resultado das urnas, trata-se de um avanço da própria democracia brasileira. A presença feminina deixa, gradualmente, de ser episódica para se transformar em uma realidade cada vez mais consolidada na política nacional. O processo ainda ocorre em ritmo mais lento do que seria desejável — as mulheres continuam sendo minoria nas duas Casas —, mas os números revelam uma trajetória consistente de crescimento. E, uma vez que esse movimento demonstra resultados concretos, é razoável esperar que a representação feminina continue avançando nas próximas eleições.
Talvez o aspecto mais significativo desse avanço esteja justamente em seu caráter transversal. A presença feminina no Congresso não pertence a uma única corrente ideológica, partido ou campo político. Mulheres foram eleitas por diferentes forças e representam visões distintas sobre economia, costumes, segurança pública, direitos sociais e o papel do Estado. Isso demonstra que a participação feminina não pode ser compreendida como bandeira exclusiva de determinado grupo político, mas como uma conquista democrática que atravessa diferentes setores da sociedade. A mulher que chega ao Parlamento não deixa de ter suas convicções políticas; ao contrário, leva para a vida pública a mesma pluralidade de opiniões que caracteriza o eleitorado brasileiro. O crescimento de sua representação, portanto, não significa uniformização ideológica, mas a ampliação da própria diversidade política do Congresso.
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