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Helena Degreas

O Brasil está se prevenindo para o El Niño de 2026 ou esperando a próxima emergência?

Com probabilidade superior a 80% de formação no segundo semestre de 2026, o El Niño expõe uma fragilidade conhecida: o país ampliou monitoramento, financiamento e resposta emergencial, mas ainda não transforma esses instrumentos em prevenção concreta nos municípios

Helena Degreas

Socorristas atuam durante chuva forte no RS
Socorristas atuam durante chuva forte no RS DIOGO ZANATTA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Nos próximos meses, os brasileiros poderão acompanhar, mais uma vez, o quanto o país está preparado, ou não, para enfrentar extremos climáticos. O El Niño é um fenômeno capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura, podendo intensificar precipitações em algumas regiões, agravar secas em outras, afetar reservatórios, produção agrícola, abastecimento de água e áreas já expostas a enchentes, além de causar deslizamentos e ondas de calor.

Em nota técnica conjunta, INPE, INMET, Funceme e Censipam indicam probabilidade superior a 80% de formação do El Niño no segundo semestre de 2026, com possível persistência até o início de 2027. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e a intensidade do evento. Em geral, o fenômeno aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste e favorece volumes maiores de chuva no Sul.

Planos, alertas e recursos existem. O problema é que a capacidade nacional de monitorar, financiar e responder a emergências ainda não se converteu, na mesma proporção, em prevenção e adaptação nos municípios. A falha da política climática brasileira está nessa distância entre o recurso anunciado e a ação concreta nos municípios.

O governo federal ampliou a estrutura de monitoramento de desastres. Segundo informação apresentada pela ministra Luciana Santos em audiência no Senado, o orçamento do Cemaden em 2024 foi de R$ 29,68 milhões. A cobertura passou de 1.038 para 1.942 municípios, alcançando cerca de 60% da população brasileira. Na mesma ocasião, a ministra reconheceu uma das fragilidades do sistema: a dificuldade de estruturar as defesas civis municipais e transformar dados em planos e ações. (Senado Federal, 19 mar. 2025)

Também há mais dinheiro disponível para a agenda climática. O Fundo Clima teve R$ 14 bilhões em orçamento público em 2025, com previsão de R$ 27 bilhões para 2026, e mobilizou R$ 52,4 bilhões desde 2023. O AdaptaCidades (MMA), criado para apoiar planos locais de adaptação, partiu de 260 municípios prioritários; 193 foram confirmados pelos estados na etapa inicial. Já a Lei nº 15.200/2025 abriu crédito extraordinário de R$ 520 milhões para ações de proteção e defesa civil. (BNDES/MMA, 2026; MMA, 2025; Senado Federal, 2025)

No papel, portanto, há coordenação, orçamento e vocabulário técnico. Na prática, a engrenagem pública ainda funciona melhor quando o desastre já ocorreu.

Prevenir é agir antes do problema acontecer: significa mapear riscos, controlar ocupações, rever obras, proteger encostas, melhorar a drenagem e planejar o abastecimento. É um trabalho a longo prazo. Adaptar é preparar cidades e serviços públicos para um clima que já mudou. Responder é agir quando o dano começou: abrir abrigos, distribuir água, reconstruir pontes e contabilizar perdas. O Brasil ainda apresenta como prevenção medidas concentradas na resposta emergencial.

A conta aparece nos números. Em 2025, o relatório do Cemaden registrou aproximadamente R$ 2,9 bilhões em danos materiais e cerca de R$ 3,9 bilhões em prejuízos econômicos associados a desastres hidrometeorológicos. (Cemaden, Estado do Clima: Extremos de Clima e Desastres no Brasil, 2026)

Os custos não se limitam ao balanço anual de danos. Estudo do Centro Internacional Celso Furtado, com apoio do Instituto Clima e Sociedade, estima que o Brasil perde cerca de R$ 110 bilhões do PIB por ano em razão de desastres ambientais ligados a chuvas e secas. Em cenário de aquecimento global de 2°C, esses prejuízos podem chegar a R$ 144,6 bilhões anuais. Já os custos da inação climática poderiam passar de R$ 48,1 bilhões para R$ 84,5 bilhões por ano.

O paradoxo orçamentário reforça essa lógica. Enquanto recursos extraordinários são liberados para resposta e reconstrução, programas de prevenção e adaptação seguem disputando espaço. O Inesc apontou que o PLOA 2025 reduziu para R$ 1,7 bilhão a dotação do programa de gestão de riscos e desastres. Também indicou corte de R$ 380 milhões em ações de prevenção de desastres e adaptação climática em 2025. (Inesc, 2024 e 2025)

A disparidade mais grave está nos municípios. Ali, enchentes invadem casas, pontes cedem, bairros ficam isolados e famílias perdem móveis, documentos, remédios, escolas, trabalho, memória e vidas. Também faltam equipes técnicas, dados atualizados, recursos próprios e planejamento.

Segundo a revista Pesquisa FAPESP, com base em estudo publicado na Sustainable Cities and Society, menos de 13% dos municípios brasileiros apresentam boa capacidade institucional e instrumentos legais razoáveis para se adaptar às mudanças climáticas. Apenas 13% das cidades declararam, em 2020, possuir planos municipais de redução de riscos, e 5,5% tinham cartas geotécnicas. (idem)

O país conhece o repertório da Agenda 2030: cidades resilientes, adaptação climática, redução de riscos e ação contra a mudança do clima. Governos repetem compromissos com facilidade, mas ainda executam pouco onde o desastre acontece: nos municípios.

Esses dados mostram a razão de recursos nacionais não garantirem proteção local. Dinheiro em fundos, programas e créditos extraordinários só se transforma em ação com projetos, equipes, diagnóstico, governança e capacidade administrativa. Sem essa estrutura, a política climática chega mais facilmente como socorro, não como prevenção.

O Brasil tem monitoramento, fundos, programas de adaptação e leis capazes de mobilizar recursos. Falta transformar toda essa estrutura em capacidade técnica e de ação municipal. Enquanto as cidades não tiverem plano, defesa civil estruturada, carta geotécnica e acesso efetivo ao financiamento, a emergência continuará recebendo mais atenção do que a prevenção.

O El Niño de 2026 será mais do que um fenômeno climático a monitorar. Será um teste da capacidade brasileira de transformar alerta em planejamento, financiamento em execução e emergência em prevenção. O país já sabe identificar parte dos riscos. Falta demonstrar capacidade para reduzi-los antes de sua conversão em desastre.

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