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Helena Degreas

Queria ser uma velha andando

O corpo sabia as distâncias todas. Sabia onde começava e onde terminava o que era meu

Helena Degreas

idosa andando na rua
Na rua, o que vale é quem ocupa primeiro Charles Puaud/Unsplash

Fiz oitenta e seis. Minha filha me chama para dar a volta no quarteirão.

Digo que sim. Sempre. O que não digo é quanto me custa.

Trabalhei décadas atrás de um balcão toda uma vida. Antes, na fábrica, costurando o que a loja vendia. Ficava em pé o dia inteiro e, no fim, ainda varria a calçada. A minha calçada não tinha um papel no chão. Freguês entrava, saía, de segunda a sábado. O corpo sabia as distâncias todas. Sabia onde começava e onde terminava o que era meu.

Agora o corpo erra. A cidade também.

Saímos. Na primeira esquina, uma moto atravessada no passeio ocupa o lugar por onde os meus pés deveriam passar. Minha filha me guia para o asfalto. Um carro buzina, e a palavra sai sozinha:

— Desculpa.

— Mãe, a senhora não fez nada.

Eu sei. Peço assim mesmo.

Mais adiante, mesas de madeira ocupam a calçada inteira. Na parede, um alvará transforma a passagem em extensão do restaurante. O garçom ajeita uma cadeira, e eu não sei se me dá licença ou me manda embora.

Passo de lado. Minha bolsa roça num rapaz que bebe cerveja.

— Desculpa.

Ele nem levanta os olhos.

Na rua, o que vale é quem ocupa primeiro. A moto, a mesa, o carro, a caçamba. Todos parecem ter recebido autorização. E a minha? Onde está o papel dizendo que ainda posso passar?

Minha filha aperta meu braço antes de cada desnível.

Eu criei essa menina. Ensinei-a a atravessar a rua, a contar troco, a não dever nada a ninguém. Agora ela me conduz, e parece sentir cada tropeço meu antes de mim.

Diante de uma caçamba de entulho, hesito. Meço a passagem com os olhos.

Antigamente, eu media tecido sem régua, apenas no braço esticado. Sabia se dava uma blusa, um vestido. Hoje não sei dizer se meu pé vence um pedaço de laje.

A bengala encontra primeiro o cimento. Escorrega. Ela me segura.

— Está tudo bem?

— Está.

O calor sobe pelo meu rosto.

Vergonha. Essa é a palavra que não digo.

Trabalhei a vida inteira sem faltar, sem baixar a cabeça para ninguém. Dona do meu nariz, como se dizia. Agora caminho olhando para o chão, à espera do próximo buraco.

No banco da praça, sento-me. Um ferro solto rasga a barra do meu vestido. O azul, aquele que minha filha diz que me cai bem.

Olho o movimento. Uma mulher empurra o carrinho de bebê pelo asfalto porque não há passagem. Uma menina em cadeira de rodas espera diante do rebaixo tomado por um carro.

Não sinto tristeza. Sinto raiva.

Raiva de quem faz rampa sobre a calçada para não perder espaço dentro da garagem. De quem deixa entulho de obra na rua e pede para esperar “cinco minutinhos”. Raiva, sobretudo, de quem tem licença, carimbo, protocolo, e nunca pergunta se o resto das pessoas consegue passar.

Ela repete:

— A calçada é que está errada, mãe.

Saber eu sei. Sentir é outro balcão.

Quando me levanto, os joelhos doem. As costas também. Eu queria apenas andar, pôr um pé diante do outro sem medir frestas, sem negociar passagem.

Queria ser uma velha andando, não uma velha desviando.

Na volta, solto o braço da minha filha diante da porta. Ajeito o cabelo.

— Amanhã vamos de novo — digo.

Ela sorri.

Não sabe que já decorei o caminho: a moto, as mesas, a caçamba, o piso levantado. Guardo tudo de cabeça, como guardava preços e medidas. Quem sabe, sabendo onde está cada armadilha, amanhã eu não precise pedir desculpa.

Entro em casa. Dobro para dentro a barra rasgada antes de me sentar.

Entender essa cidade cansa mais do que andar.

Mas amanhã, se a tarde estiver bonita, eu saio de novo.

Não porque a cidade mereça.

Eu mereço.