Transformação da Amazônia em cerrado é uma ameaça de proporções globais
Garimpos ilegais, fogos intencionais, extração criminosa de espécies vegetais vêm causando danos irreparáveis à Floresta Amazônica, afetando não apenas a população que reside em território brasileiro, mas todo o mundo. A transformação iminente da Amazônia em cerrado é uma ameaça de proporções globais. Esta mudança afeta diretamente o cotidiano dos brasileiros e tem implicações que ressoam em todo o planeta. No Sul do Brasil, Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão sofrendo com alterações nos padrões de chuva, levando a inundações e alagamentos, obrigando milhares de pessoas a abandonar suas casas. Em contrapartida, Estados do Nordeste, como Bahia, Sergipe, Maranhão e Piauí, enfrentam baixas precipitações e temperaturas acima da média. Isso tem impacto direto na vida das pessoas, afetando a saúde da população mais idosa, que se torna mais vulnerável a doenças relacionadas ao calor.
Moro na região Sudeste. Para além das ventanias, calores de 40°C em plena estação de inverno e chuvas abruptas torrenciais, observo a mudança na variedade e no preço dos alimentos, uma vez que a agricultura enfrenta ameaça de perda de colheitas decorrentes de secas e inundações. Pressão arterial alterada e síndromes respiratórias são algumas das consequências que afetam a saúde da população idosa, mais suscetível a doenças relacionadas ao calor, elevando preocupações sobre a saúde pública. Em vistoria à obra, observo o sofrimento que trabalhadores da construção civil enfrentam para desempenhar seu trabalho no topo de um telhado com a temperatura escaldante. Posso afirmar que, em muitos dos casos — incluindo o meu —, a situação é incapacitante.
Uma nota técnica do Projeto MapBiomas sobre a severa seca no Estado do Amazonas revela o impacto direto sobre 633 mil pessoas em 59 dos 62 municípios. Essa situação crítica resulta da combinação de fenômenos climáticos, como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte, que desencadearam uma estiagem intensa, reduzindo drasticamente os níveis de água nos rios, incluindo o Amazonas e o Negro. Como consequência, mais de 40 cidades declararam estado de emergência devido à escassez de água, causando sérios danos à biodiversidade, resultando na morte de milhares de peixes e botos. Através de técnicas de processamento de imagens de satélite, foi estimada uma significativa redução na superfície de água no Amazonas, comparando imagens de setembro de 2022 com setembro de 2023. Em apenas um ano, a extensão de água diminuiu em 1,39 milhões de hectares, um impacto devastador que levou muitos municípios a declararem estado de emergência ou alerta, ressaltando a gravidade da situação. Sem água não há vida.
O resultado encontra-se nas manchetes que estampam a descoberta de um sítio arqueológico nos principais jornais brasileiros e mundiais. Neles, destacam-se imagens de gravuras rupestres indígenas localizadas entre os Rios Negro e Solimões anteriores à invasão dos colonizadores portugueses ao lugar. O fato é que comunidades inteiras agora enfrentam o isolamento e a falta de água. Sem a pesca e água para beber, em breve o Brasil enfrentará uma crise humanitária protagonizada por populações ribeirinhas que, ao dependerem das águas para seu sustento, migrarão para outras regiões em busca de condições de subsistência, tal qual refugiados climáticos. Embora o conceito ainda careça de definição precisa, o fato é que a ausência de políticas públicas para áreas afetadas pelas contingências climáticas é inadmissível, uma vez que a população reside em “áreas de risco”, cabendo aos governos a proteção da dignidade humana por meio da implementação de políticas de mitigação e de adaptação das cidades e governos.
O que vem ocorrendo mostra falta de controle eficaz, administração incompatível, portanto falha, nas instituições governamentais e no processo de tomada de decisões, além de eventuais atos de corrupção, ineficiência na fiscalização e falta de transparência na governança. O tema foi abordado em audiência pública da Comissão Mista sobre Migrações Internacionais e Refugiados (CMMIR) no mês de agosto. Falou-se sobre os deslocamentos forçados de populações relacionados às consequências das mudanças climáticas, reiterando a necessidade de governos atuarem na prevenção de desastres socioambientais em alinhamento aos esforços globais para contê-las.
O recente Sexto Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alertou para a iminência de desafios climáticos em todo o mundo, com um aumento nas mortes relacionadas ao calor extremo, que costumavam ocorrer uma vez a cada século. Agora se repetem a cada dois a cinco anos. O IPCC, desempenhando um papel crucial nas negociações climáticas globais, congrega especialistas de todo o planeta para avaliar as mudanças climáticas e conscientizar sobre a urgência de ações. Entretanto, no Brasil, o enfraquecimento das políticas de governança climática, como leis ambientais mais brandas e diminuição da fiscalização, ameaça tanto as negociações internacionais quanto a proteção da Amazônia, minando a confiança global. O país, que sediará a COP-30 em 2025, enfrenta o desafio de demonstrar comprometimento com a governança climática e a preservação da floresta tropical.
No cenário nacional, a preferência por interesses privados sobre a sustentabilidade ambiental se reflete em diversos setores. O avanço da agropecuária, mineração descontrolada e construção de infraestrutura inadequada ameaçam uma degradação ambiental irreversível, frequentemente resultando em incêndios florestais, perda de habitats naturais e redução da biodiversidade. O Estado do Amazonas ilustra esses desafios. A iminente transformação da Amazônia em cerrado não afetará somente a população local e o Brasil, mas também ecossistemas fundamentais para a regulação do clima global e conservação da biodiversidade. A pergunta que deve ser feita é: como podemos, governos e sociedade, reverter esse cenário preocupante? A resposta começa com ações concretas em várias frentes.
No artigo intitulado “(Des) Governança Climática”, publicado por Eliane Fonseca Daré (Colaboradora do “Jornal da Unicamp”), é feita uma análise sobre a possibilidade de evitar o fracasso global nas negociações climáticas internacionais por meio de um maior envolvimento do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) a partir de três trajetórias, considerando o papel do painel de assessoria aos governos globais (revista “Nature Climate Change”).
Em primeiro lugar, fortalecer a governança climática e o cumprimento das obrigações internacionais pelo Brasil para preservar a Amazônia. Isso implica na ampliação das leis ambientais, no combate ao desmatamento e na promoção de práticas sustentáveis, demandando liderança dos chefes de Estado para efetivar medidas que reduzam o sofrimento e as mortes. Em segundo lugar, é essencial que a comunidade internacional continue a pressionar por ações eficazes para proteger a Amazônia. A COP-30 em 2025 oferece uma plataforma crucial para essas discussões, e os países participantes devem usar essa oportunidade para reafirmar seu compromisso com a luta contra as mudanças climáticas.
Em terceiro lugar, as comunidades locais, incluindo povos indígenas e tradicionais, desempenham um papel essencial. Sua sabedoria e práticas sustentáveis são cruciais para preservar a Amazônia. Proteger seus direitos e promover parcerias é fundamental na estratégia de conservação. A conscientização e o ativismo público desempenham um papel vital, com os cidadãos atuando como defensores ativos da floresta. Eles devem pressionar seus governos e apoiar organizações comprometidas com a proteção ambiental.
A iminente transformação de vastas partes do bioma amazônico em cerrado suscita preocupações globais devido às implicações econômicas e sociais que afetam a população mundial. Diversos fatores, como mudanças climáticas, políticas climáticas enfraquecidas no Brasil, procrastinação nas tomadas de decisão e ações voltadas para redução de CO² e interesses privados em detrimento da sustentabilidade ambiental, contribuem para o aumento da frequência e intensidade das secas na Amazônia, como indicado no Sexto Relatório do IPCC. A realização da COP-30 no Brasil em 2025 oferece uma oportunidade crucial para revigorar o compromisso global com a proteção da Amazônia. Para reverter esse cenário preocupante, é essencial fortalecer a governança climática, integrar as comunidades locais nas estratégias de conservação e promover a conscientização pública.
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