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Reinaldo Polito

Lula deve ser criticado ou elogiado nessa ida para a cúpula do G7?

Brasileiro foi convidado pelo presidente francês para participar da reunião ampliada do grupo

Reinaldo Polito

Presidente Lula (PT) chegando no G7, nesta quarta-feira (17)
Presidente Lula (PT) chegando no G7, nesta quarta-feira (17) LUDOVIC MARIN / AFP

Esta semana, o chefe do Executivo caprichou na escolha de alguns modelos de seus novos chapéus. Afinal, precisou arrumar as malas para visitar seu amigo Macron, na França. Embora não faça parte do G7, Lula foi convidado pelo presidente francês para participar da reunião ampliada do grupo. Mas, diante do problema iminente que o Brasil deverá enfrentar com o tarifaço prestes a ser imposto pelos Estados Unidos, a impressão é a de que aproveitou a boa relação com o colega europeu para arrumar um jeito de esbarrar em Trump.

Conversa de pé de escada

Vai que aconteça um novo clima entre os dois. Não precisaria muito. Uma rápida conversa de corredor ou um cochicho de pé de escada já poderia ser suficiente como artifício para o agendamento de uma reunião entre a diplomacia e técnicos americanos e brasileiros. Quem sabe, cedendo aqui e ali, tomando uma cerveja ou uma caixa delas, segundo a técnica de negociação sugerida pelo próprio Lula, tudo pudesse ser resolvido ou atenuado.

Quase deu. Segundo relatos, Lula e Trump se cruzaram em dois momentos. Em um deles, o presidente americano teria cumprimentado o brasileiro e dito: “How are you?” e “Good job”. Como Lula estava sem intérprete por perto, o contato não avançou.

Fora do cumprimento protocolar, porém, o clima azedou. Em conversa informal captada por microfone aberto, Lula afirmou: “Eu não suporto o comportamento do governo americano”. Trump, por sua vez, disse que o Brasil havia se tornado um país politicamente difícil e perigoso. Para completar, mencionou de forma confusa o “Bolsonaro Jr.”, aparentemente em referência à condenação de Eduardo Bolsonaro.

Terceirizando a culpa

Lula não perdeu a oportunidade de usar uma de suas táticas: terceirizar a responsabilidade. Sem apresentar provas, virou a metralhadora verbal, sem citar nomes, na direção de Eduardo e Flávio Bolsonaro. Às vésperas das eleições, talvez funcionasse como argumento poderoso de campanha. Chamou-os, na prática, de traidores da pátria.

Lula havia sido cauteloso no seu discurso de terça, 16, na cúpula do G7. Cobrou respeito à soberania dos países sobre o combate internacional ao crime organizado. Politicamente, foi uma jogada esperta. Como corre o risco de ser acusado de “defensor de bandidos”, não ficaria sozinho nessa luta indigesta e antipática. Aproveitou também, mais uma vez sem citar o novo tarifaço ou o nome de Trump, para criticar o unilateralismo.

Vai ser difícil consertar

O entrevero, entretanto, foi desastroso. Não só não consertou como atrapalhou ainda mais o relacionamento entre os dois países. O cumprimento existiu. A conversa diplomática, não.

Se Lula esperava uma troca de olhares amável com Trump, na expectativa de sensibilizá-lo, até houve o esbarrão. Mas não passou disso. As declarações de lado a lado mostram que a distância política entre os dois continua enorme. Muitos têm criticado Lula por essa conduta constrangedora, mas a iniciativa também pode ser vista como ato de ousadia e coragem. É preciso ter topete para aceitar o convite e aparecer como uma espécie de “penetra” político num evento dessa natureza, com aquele sentimento de “se colar, colou”. Não deu. Paciência. Passa a régua e fecha a conta.

Desta vez, não pintou a química

Se, no passado, Lula permaneceu protegido dentro de suas fronteiras, sem se expor ao risco de ir à Casa Branca e não ser recebido, outros chefes de Estado fizeram o caminho inverso. Foram a Washington, sentaram-se humildemente na sala de espera e aguardaram por alguns minutos de prosa para negociar com Trump. Lula, naquela oportunidade, preferiu esperar a bola quicar na área para visitar Washington sem sustos. Desta vez, foi diferente. Enfrentou a fera.

Alguma coisa precisava ser feita. Se daria certo ou não, só os acontecimentos poderiam dizer. Não deu, mas tentou. Há duas correntes analisando os fatos. Os oposicionistas dizem que Lula foi humilhado e se comportou mal diplomaticamente, pois foi esnobado por Trump. Os apoiadores e governistas aplaudiram, já que, com ou sem resultado, foi lá defender os interesses do país.

Perdeu a chance

Infelizmente, parece ser tarde demais. O que deveria ter sido tentado há meses só agora foi experimentado. Em vez de afrontar Trump com bravatas que não levariam a nenhum lugar, a não ser este em que nos encontramos agora, poderia ter arrumado uma cadeira ao lado dos outros líderes, que foram lá com o pires na mão tentar soluções.

Quem sabe, a partir desse aprendizado, em outra oportunidade, o responsável pelo bem-estar do país trabalhe incansavelmente para conseguir resultados diplomáticos e econômicos. No momento, porém, tudo indica que se trata menos de preocupação com esses resultados do que com pesquisas, narrativas e eleições. Siga pelo Instagram: @polito