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Reinaldo Polito

Por 40 anos contei uma história fantasiosa. E equivocada

Durante anos, contei em minhas palestras uma história que julgava verdadeira. Era tão boa e tão adequada para mostrar a força da improvisação que parecia impossível desconfiar dela

Reinaldo Polito

Palestra
Palestra Magnific

Quem conta um conto aumenta um ponto. Experimente contar uma história a alguém. Depois observe como a narrativa é recontada. Cada vez que é repetida, uma parte é retirada e outra acrescentada. Passado um tempo, irá verificar um fenômeno impressionante: a última “edição” pouco ou nada tem a ver com a primeira.

Durante anos, contei em minhas palestras uma história que julgava verdadeira. Era tão boa e tão adequada para mostrar a força da improvisação que parecia impossível desconfiar dela. Nem sei bem o motivo, mas desconfiei. Em tempo de me corrigir.

A primeira versão

No início da minha carreira, ávido por assistir às palestras e observar em cada orador aplicações práticas da arte de falar em público, ouvi uma história sobre a capacidade de improvisação de um político.

Relatou o conferencista que Carlos Lacerda, um dos maiores expoentes da oratória política do país, certa vez teve a incumbência de paraninfar uma turma de formandos. Naquela época, havia uma espécie de protocolo não escrito segundo o qual o paraninfo deveria ler o discurso.

Fingiu ler

Naquele dia, entretanto, Lacerda não havia escrito o discurso. Mesmo assim, “fez a leitura”. Quem estava ao lado percebeu que ele fingia ler, pois as folhas estavam em branco. Sua capacidade de improvisação era tamanha que a plateia não notou o artifício.

Que história maravilhosa! Como duvidar de um fato tão bem contado? Por isso, eu a reproduzi algumas vezes em minhas apresentações. Ao fazer meus estudos, descobri tempos depois que Lacerda nunca havia realizado tal proeza. O orador seria outro: o chamado “Príncipe dos prosadores brasileiros”, Coelho Neto.

Conta-se que o famoso escritor fora convidado para paraninfar uma turma de formandos. Só que ele era fanático torcedor do Fluminense. Quis o destino que a formatura e o jogo entre o Tricolor das Laranjeiras e o Flamengo ocorressem no mesmo dia. A partida se estendeu além do tempo esperado. Coelho Neto correu para se trocar e chegar no horário à solenidade. Sem tempo, porém, para escrever o discurso.

Pegou algumas folhas de papel e se dirigiu ao evento. A exemplo do que diziam sobre Lacerda, cumpriu o protocolo e fez de conta que lia. Afirmam que foi uma exposição brilhante, longamente aplaudida pelo público, que não se deu conta do truque. Bem, troquei o nome de Lacerda pelo de Coelho Neto e incluí essa narrativa ainda mais saborosa em minhas palestras.

Há pouco tempo, escaldado por tantas controvérsias, resolvi pesquisar, com a ajuda da inteligência artificial, o que realmente havia acontecido. A resposta foi segura: a história havia mesmo ocorrido com Coelho Neto, e essa última versão era fidedigna.

O tira-teima

Dessa vez, não me convenci. Tenho um grande acervo de livros antigos de oratória em português. Alguns nem são de oratória, mas, como fazem referência a oradores que se notabilizaram, incluo nas estantes. E não é que lá estava um volume publicado em 1942, de autoria de Paulo Coelho Neto, filho do escritor, contando a história da vida do pai?

Eu havia lido o livro há mais de 40 anos. Pensei: será que a minha dúvida vinha dessas páginas? Com calma, passei a reler cada capítulo. A leitura era tão fascinante que até me esqueci da pesquisa. De repente, levei um susto. Na página 40, estava o episódio.

E a conferência?

Era domingo. Disputava-se no campo do Fluminense o tradicional Fla-Flu. À noite, Coelho Neto deveria realizar uma conferência numa solenidade cívica, em um dos grandes teatros do Rio. O escritor foi ao jogo. O Fluminense triunfou. Chegando em casa, tomou rapidamente uma xícara de café e dispôs-se a escrever a conferência.

Teria duas horas e meia para preparar o texto e chegar ao teatro antes das 21 horas. Mal se sentou, porém, entrou pela casa um velho amigo, carregando um embrulho com fogos de artifício. A comemoração da vitória tomou o tempo que ele teria para escrever.

E a conferência? Sem tempo para redigir a oração, Coelho Neto pegou algumas páginas de um de seus romances, ainda em revisão, e seguiu para o teatro. A conferência foi improvisada. Mas o público sempre ignorou esse detalhe. Falou durante 50 minutos. Segundo o relato, “o observador mais atento não perceberia o disfarce”. Nenhuma pausa desnecessária. Nenhum hiato. Ao terminar, foi alvo de uma das maiores manifestações de sua carreira literária.

Qual você usaria?

A história, portanto, não era de Carlos Lacerda. Também não era de Coelho Neto como paraninfo. Era de Coelho Neto como conferencista, depois de uma vitória do Fluminense, fingindo ler não folhas em branco, mas páginas de um romance em revisão.

E você? Se precisasse contar essa história, qual das três versões iria preferir: a de Lacerda, a de Coelho Neto como paraninfo, ou a do escritor como conferencista? Resistiria à tentação de escolher a mais saborosa? Siga pelo Instagram: @polito_