O descaso com a memória apagou para sempre imagens preciosas da Copa de 1950
Estou ampliando minhas pesquisas sobre a Copa de 1950 para, quem sabe, apostar em um novo livro. Ainda existem muitas histórias a serem desvendadas. Gostaria de destacar hoje, no “Memória da Pan”, os precários registros de imagens do primeiro mundial sediado pelo Brasil. A televisão foi inaugurada no país por Assis Chateaubriand em 18 de setembro de 1950, 64 dias depois da fatídica partida entre Brasil e Uruguai. A pioneira TV Tupi abriu as portas para uma nova era da comunicação de massa, uma revolução. A primeira Copa transmitida ao vivo pela televisão foi a de 1954, quando torcedores de oito países assistiram aos jogos: Suíça (sede), França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Dinamarca. Não havia satélite, mas as imagens se propagavam graças à proximidade geográfica do continente europeu.
Não temos como saber como seria uma eventual transmissão da Copa de 1950 se a TV já existisse no Brasil. O rádio foi o protagonista de norte a sul do território nacional, e as jogadas de Ademir, Jair, Chico e Zizinho eram descritas com a emoção inigualável do veículo. Entretanto, o primeiro Mundial disputado no Brasil foi registrado em filme, e as imagens, mesmo sendo precárias, eram exibidas no Cineac Trianon, que ficava na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.
Durante toda a Copa, foram feitas sessões especiais para a exibição das partidas do Brasil e de outras seleções. Nos jornais, havia uma grande divulgação sobre o programa no cinema. As salas ficavam lotadas, exceto, nos dias em que foram exibidas as imagens de Brasil versus Uruguai, epílogo do Mundial dentro de casa. As imagens da Copa de 1950 que resistiram ao tempo se limitam a trechos de jogos e, no caso do confronto com o Uruguai, os gols foram filmados atrás das metas, ao contrário das demais partidas da equipe nacional em que as câmeras estavam posicionadas nas tribunas ou nas arquibancadas.
As cenas dos gols de Ghiggia e de Schiaffino, os carrascos uruguaios em 1950, foram filmadas por Milton Ferreira, que trabalhava como auxiliar havia três anos no Cine Laboratório Alex, cujo proprietário era Alexandre Wulfes. A companhia foi contratada pelo cineasta Milton Rodrigues, irmão do cronista e escritor Nelson Rodrigues e de Mário Filho, do Jornal dos Sports, que tanto lutou pela construção do Maracanã. E foi justamente o jornalista, que futuramente daria nome ao estádio, que ganhou uma concorrência internacional para filmar a competição no Brasil com exclusividade. De acordo com Ruy Castro, biógrafo de Nelson Rodrigues (Anjo Pornográfico/Companhia das Letras), Mário Filho tinha boas relações com o presidente da CBD, Rivadávia Correia Meyer (ainda não tinha sido substituído por Mário Pollo) e com a própria Fifa, comandada por Jules Rimet. Entretanto, apesar do “lobby”, a escolha foi justa.
Em 2014, a Folha de S.Paulo teve acesso a um contrato assinado em 22 de maio de 1950, cerca de um mês antes do início da competição, mostrando que a Cinédia, um dos maiores estúdios cinematográficos do Brasil, que tinha participado do consórcio vencedor, deixou que os irmãos Rodrigues ficassem responsáveis pelas filmagens.
Em 1950, Milton Ferreira tinha apenas 15 anos, era um aprendiz de cinema, mas coube a ele fazer as imagens mais marcantes das últimas décadas do futebol nacional. O rapaz foi instruído por um dos chefes a ficar atrás do gol da seleção brasileira. “Depois que tirei a câmera do rosto, coloquei no chão e tive vontade de chorar. Até agora me emociono. Ficou um túmulo aquele Maracanã. Todos nós morremos um pouquinho naquele momento”, declarou à Folha de S.Paulo, aos 79 anos, em 2014.
[cta-selector name=”model3″ image1=”https://s.jpimg.com.br/wp-content/plugins/CTA-posts-selector/assets/images/640_JPEsportes.jpg” text2=”Siga o canal da Jovem Pan Esportes e receba as principais notícias no seu WhatsApp!” link3=”https://www.whatsapp.com/channel/0029Va9wMgZD8SE3UbBwem2u” text4=”WhatsApp” icon5=”fa-brands fa-whatsapp” ]
É possível que mais imagens dos gols de Ghiggia e de Schiaffino tenham sido feitas por outros cinegrafistas, mas, infelizmente, se perderam no tempo. Não existe uma razão exata para o desaparecimento do material. Por volta de 1963, como destaca Ruy Castro em seu livro, as cópias e os negativos sumiram de forma misteriosa por volta de 1963. Uma das possibilidades foi um incêndio no prédio do Cineac Trianon, onde os rolos estavam guardados. Uma outra teoria, dada pelos irmãos Rodrigues, é de que as latas teriam sido roubadas.
Por quem? Ninguém sabe.
A Fifa começou a produzir os filmes oficiais das Copas em 1954, Mundial seguinte ao do Brasil. Entretanto, imagens raríssimas do Mundial de 1950 aparecem em documentários estrangeiros. “Maracaná” (2014) é baseado no livro Maracanazo, a História Secreta, escrito pelo uruguaio Atílio Garrido. O documentário traz excelentes imagens, por exemplo, das partidas da Celeste no Pacaembu, contra Espanha e Suécia. Inclusive, o gol que Ghiggia marcou diante dos espanhóis é muito parecido com o fatídico lance do segundo gol sofrido por Barbosa no duelo final. Existe ainda um documentário em espanhol que contém imagens raras do Maracanã e dos jogos da “fúria”. Entretanto, há poucos registros no YouTube.
Realmente a preservação da memória não é o forte do Brasil.
[jp-related-posts ids=”2029007,2028335″]