Grafite sobre racismo: ‘Luta está mais igual, mas mudar estrutura vai levar tempo’

Ex-atacante da Seleção Brasileira, Grafite diz estar animado com a onda de protestos contra o racismo no Brasil e no mundo

  • Por Jovem Pan
  • 30/06/2020 10h30
ReproduçãoGrafite é ex-atacante da seleção brasileira

Passado mais de um mês da morte do americano George Floyd, em Minneapolis, a onda de protestos contra o racismo permanece em diversos países. E no esporte não tem sido diferente: atletas continuam a fazer manifestações, algo que ganhou mais repercussão com a volta dos campeonatos ao redor do mundo. O engajamento dos esportistas deixa o ex-atacante Grafite otimista em relação ao combate por igualdade racial. O hoje comentarista dos canais SporTV acredita que “agora a luta está mais igual”, embora pense que ainda vai demorar para as estruturas serem realmente modificadas.

“Eu estou vendo essa situação com bastante ânimo. Não tínhamos esse engajamento aqui no Brasil, especialmente dos jogadores de futebol, porque é muito difícil o jogador se posicionar por qualquer causa aqui. Ele vai ser cobrado por isso depois quando as coisas não acontecerem dentro de campo, quando os gols não saírem, quando tiver falhas. Já vi jogador ser cobrado por dirigente por estar se empenhando por alguma causa fora das quatro linhas. “Deixa isso de lado, está prejudicando o time e a sua carreira. Pensa em você e no seu futuro”. Até entendo muitos jogadores não se juntarem à causa, não baterem de frente. Mas agora abriu-se uma janela que não pode mais ser fechada com o caso George Floyd”, comentou Grafite.

“Vimos grandes esportistas ao redor do mundo. Quando o cara é consagrado, já tem uma independência financeira, é mais fácil para se posicionar. Eu senti isso na pele. Quando eu era jovem, era difícil eu me posicionar por alguma coisa. Quando aconteceu o caso de racismo comigo em 2005, eu tinha 27 anos, estava em uma crescente, na iminência de me transferir para a Europa. É difícil para o jogador tomar a frente. Se fosse hoje, depois da minha volta para o Brasil em 2015, sendo mais rodado e experiente, seria diferente, teria outra cabeça. O engajamento que teve ao redor no mundo e no Brasil, com grandes estrelas se posicionando, me deixa muito feliz, vejo com bons olhos essa repercussão e espero que seja permanente esse engajamento não só contra o racismo, como também contra a homofobia e contra preconceito religioso”, continuou.

Grafite sofreu em campo com o racismo, no primeiro caso que ganhou mais repercussão no futebol sul-americano. Em 2005, quando defendia o São Paulo em partida da Copa Libertadores, o então atacante foi chamado de “negro de merda” pelo zagueiro argentino Desábato, do Quilmes. Grafite acabou expulso pela briga e o defensor recebeu voz de prisão ainda no Morumbi. Desábato passou duas noites na cadeia, pagou fiança de R$ 10 mil e pôde retornar à Argentina.

Na época, o atacante decidiu não prestar queixa-crime, mas hoje diz que conduziria o caso de forma diferente. Nesta entrevista o Estadão, Grafite admite que é difícil para esportistas se posicionarem contra o preconceito e torce para que o engajamento atual se torne permanente.

“Mudar a estrutura é difícil. O racismo é uma doença, uma pessoa que odeia a outra por causa de pele, religião ou credo é complicado, é difícil, é educação. Isso tem que ser combatido dentro de casa, na escola. Acho que mudar é difícil, mas acho que agora temos uma briga mais equilibrada, estamos mais fortes nessa briga, mas não vai ser fácil. A repercussão que tomou foi muito grande desde a morte do George Floyd, estamos vendo protestos até hoje, acho que tem que ser um engajamento permanente. Me recordo que quando eu estava fora do país o pessoal me ligava para falar sobre racismo em 13 de maio (sanção da Lei Áurea) e 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), ou quando acontecia um caso isolado. Falta o engajamento maior no Brasil. Quando eu jogava na Alemanha, era praticamente o ano todo fazendo campanha, íamos às escolas, entrávamos em campo com faixa e camisas sobre o combate ao racismo, e em um país onde a maioria é branca. Aqui no Brasil, a maioria é negra e não temos esse combate permanente, é estranho isso. Agora a luta está mais igual, mas mudar a estrutura ainda vai levar muito tempo”, opinou.

*Com Estadão Conteúdo