Avanço do IPCA acende alerta para volta da inflação

Acúmulo de 3,14% nos últimos 12 meses indica impulso maior do que o esperado; presidente do BC diz estar ‘relativamente tranquilo’

  • Por Gabriel Bosa
  • 09/10/2020 12h33 - Atualizado em 09/10/2020 12h35
Bruno Rocha/Foto Arena/Estadão Conteúdo Copom anunciou manutenção da taxa básica de juros a 2% ao ano, mas admite possibilidade de novo corte caso haja risco de descontrole da inflação

O acúmulo de 3,14% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) nos últimos 12 meses acende o alerta para a volta da inflação fora de controle no país. Mesmo que o avanço seja notado em pontos isolados, puxado principalmente pelo segmento de alimentos e bebidas, os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 9, indicam que o impulso da variação de preços é mais intenso do que o imaginado pelos analistas. Diante destes sinais, o Banco Central deve rever a estratégia de manter a Selic ao nível mais baixo da história para aumentar gradualmente a taxa básica de juros da economia brasileira no início do próximo ano.

Para Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos (Acrefi), a alta de 0,64% em setembro, a maior para o mês desde 2003, é influenciada em parte pela demanda atípica por determinados itens e os gargalos na oferta, além da permanência do dólar em patamares elevados. Ele estima que o índice siga em alta até novembro e inicie processo de decida no fim do ano, para fechar na média de 3,5%. O descompasso entre demanda, oferta e disparada da moeda norte-americana é exemplificada pelos aumentos históricos de 51,30% e 40,69% dos preços do óleo de soja e arroz, respectivamente, no ano. “A demanda cresceu acima da normalidade com o consumo das famílias voltado para dentro de casa. O arroz e o óleo de soja são regulados com valores internacionais, então a alta do câmbio impacta nos preços”, afirma.

Já a ponta da oferta é impactada pela suspensão das atividades de grande parte da indústria entre abril e maio, e as dificuldades para retomar a produção nos meses seguintes. “A indústria entrou em descompasso com a paralisação forçada no início da pandemia. A partir do momento que começou a ter demanda, os setores industriais precisaram se reorganizar diante dos estoques baixos e a falta do capital de giro”, diz o economista.

Em entrevista à jornalista Denise Campos de Toledo, da Jovem Pan, nesta quarta-feira, 7, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a variação no valor dos alimentos é generalizado em todo o mundo, influenciada principalmente pelo câmbio. No Brasil, a situação é agravada pelo aumento do consumo das famílias brasileiras. “É importante contemporizar e analisar todos os fatores. Nós olhamos todos esses fatores, olhamos o núcleo da inflação e o cenários. Apesar de entender que existem essas pressões, estamos relativamente tranquilos com o cenário da inflação à frente.”

A retomada das atividades econômicas aguardada para 2021 deve dar o tom da inflação para os próximos meses. Segundo Tingas, a variação dos preços ficará veiculada ao arranque da economia diante dos desafios do controle de gastos públicos e a situação fiscal do país. “Temos incertezas importantes sobre o orçamento, que podem refrear a demanda. Nós sabemos que o PIB vai crescer, mas o que se discute é a qualidade deste crescimento e como vai ficar o grau de incerteza”, afirma Tingas.