Alckmin chama greve dos metroviários de “absurda” e defende concessões

  • Por Thiago Navarro/Jovem Pan
  • 18/01/2018 09h12 - Atualizado em 18/01/2018 09h37
NEWTON MENEZES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO"Nós não vamos retroagir", diz o governador sobre privatização da operação de novas linhas, cuja licitação é acusada de ser de "cartas marcadas"

O governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) classificou a greve dos metroviários em São Paulo de “absurda” e disse que a paralisação “reforça a convicção” de que “está correta” a concessão da operação de novas linhas do Metrô.

O Metrô paulista amanheceu com as portas das estações fechadas, mas as principais linhas já operam parcialmente nesta quinta-feira (18). A greve ocorre justamente contra o leilão da operação das linhas 5-Lilás e 17-Ouro, marcado para esta sexta (19). O Sindicato dos Metroviários acusa ainda o governo estadual de fraudar a licitação das linhas, favorecendo a companhia CCR com “cartas marcadas”, o que o Metrô nega.

“Essa absurda greve de parte dos metroviários, que não respeita decisão judicial que garantiu 80% de funcionamento em horário de pico nos reforça a convicção de que está correta a concessão das linhas 5 e 17”, disse o governador em vídeo postado em seu perfil no Twitter. “Veja que neste momento a única linha operando totalmente é aquela operada pela iniciativa privada, que é a linha 4”, destacou Alckmin. Veja:

“Nós não vamos retroagir e queremos ampliar os serviços de metrô e trem em São Paulo e com melhor qualidade de serviços”, garantiu o governador tucano e pré-candidato à Presidência.

Por volta das 9h, as estações que operam são: Linha 1-Azul entre Saúde e Luz, Linha 2-Verde entre Ana Rosa e Vila Madalena, Linha 3-Vermelha entre Tatuapé e Marechal Deodoro, Linha 5-Lilás entre Capão Redondo e Adolfo Pinheiro. A Linha 15-Prata está paralisada. Por ser privatizada, a Linha 4-Amarela funciona normalmente e as seis linhas da CPTM também possuem funcionamento normal.

A paralisação do Metrô atrapalhou a chegada de paulistanos ao trabalho. A equipe Jovem Pan acompanhou a movimentação nas principais estações. Veja:

Na decisão do Tribunal Regional do Trabalho ficou determinado que 80% da frota circulasse nos horários de pico, entre 06h e 09h, e das 16h às 19h. Entretanto, no começo da manhã desta quinta nenhuma estação abriu as portas.

O Metrô diz que preparou uma equipe de contingência para tentar, pelo menos, manter o funcionamento nas principais estações centrais.

Por causa da greve, a Prefeitura suspendeu o rodízio de veículos, e os carros com placas de final 7 e 8 poderão circular normalmente. A região “Zona Azul”, sistema de cobrança para estacionar nas ruas na região central, também está liberada.

A SPTrans informou que as 150 linhas de ônibus do serviço noturno vão operar normalmente em todas as regiões da cidade.

Um ato público contra a privatização das linhas 5-Lilás e 17-Ouro está agendado para o dia 19, essa próxima sexta-feira, a partir das 9h, em frente à Bolsa de Valores, onde será realizado o leilão da operação das novas linhas.

Leilão mantido

Em entrevista ao Jornal da Manhã, o secretário de Transportes Metropolitanos do Estado, Clodoaldo Pelissioni, classificou a greve como “política” e garantiu que o leilão das novas linhas está mantido para esta sexta:

“Cartas marcadas”

Os metroviários em greve pretendem denunciar a “entrega” das linhas 5-Lilás e 17-Ouro, em construção. O Sindicato dos Metroviários de São Paulo também acusa a licitação das linhas de ser de “cartas marcadas”. No último dia 11, a categoria “denunciou” que a empresa CCR será a vencedora das licitações das duas linhas marcadas para o próximo dia 19.

Segundo os metroviários, o edital foi realizado para favorecer a companhia. “A CCR, que opera a Linha 4-Amarela, é a única empresa capaz de cumprir os pré-requisitos do edital, como já ter operado um sistema metroferroviário com movimento de 400 mil passageiros por dia”, diz o texto no site do sindicato. O Metrô nega e diz que há “pelo menos quatro grupos europeus capacitados para participar da licitação”.

Os metroviários também afirmam que a CCR é a única empresa que realizou uma análise técnica para concorrer na licitação, e que foi, inclusive, remunerada pelo Metrô, assim como a Odebrecht, para realizar o estudo que serviu como base do pré-edital que ela mesma concorreu. “Além de ser a única a apresentar os estudos técnicos, os critérios estabelecidos foram feitos sob medida para ela (a CCR)”, acusa a categoria, citando “exigências com experiência com o modal Monotrilho”, sendo que “a CCR tem o único e minúsculo trecho existente em São Paulo e também é a responsável pelo monotrilho na Bahia”.

Além de beneficiar uma única empresa, o edital prevê que as linhas sejam entregues à iniciativa privada prontas, com novos trens e sistema implementado, ou seja, com o ônus da construção unicamente para o Estado, acusa a Federação Nacional dos Metroviários (Fenametro). O lance inicial previsto no leilão é de R$ 189,6 milhões, um valor que não chegaria a cobrir sequer os investimentos iniciais do Estado, além de ser financiado com dinheiro público, pelo BNDES. Segundo o sindicado, apenas o sistema dos trens, o chamado CBTC, custou aos cofres públicos R$ 175 milhões.

O sindicato apontou, por fim, que a CCR tem como principais acionistas as empreiteiras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, acusadas de cartel e corrupção em diversas ações da Lava Jato, inclusive em obras antigas do metrô paulista.

Outro lado

A redação do Portal Jovem Pan entrou em contato com a assessoria do Metrô e questionou sobre as acusações do sindicato. Veja o posicionamento completo da Companhia do Metropolitano de São Paulo:

Em relação às acusações levianas divulgadas pelo Sindicato dos Metroviários sobre o leilão das linhas 5 de metrô e 17 de monotrilho, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos (STM) esclarece que:

– Está inteiramente equivocada a afirmação de que seria a CCR o único consórcio capaz de vencer o leilão. Em setembro de 2017, equipe do governo de São Paulo fez roadshow e fez contato com pelo menos quatro grupos europeus capacitados para participar da licitação, que ocorre na modalidade internacional justamente para ampliar a concorrência.

– O edital de licitação passou por ampla revisão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, de 26/9 a 19/12/2017. Nestes 85 dias, o órgão solicitou apenas alteração em um único item do edital, liberando-o, em seguida, para publicação. É importante ressaltar que todos os questionamentos foram julgados improcedentes.

– Todos os integrantes dos consórcios que formam as SPEs (Sociedades para Propósitos Específicos) que atuam na área metroviária são dotadas de competência para participar do pregão.

-As linhas 5 e 17 estiveram abertas à visitação dos interessados entre 19/5/2017 e 20/6/2017, período em que quatro empresas fizeram visitas técnicas às linhas: CCR, CAF, Benito Roggio e Primav/CR Almeida.

– O Governo do Estado de São Paulo vai conceder apenas a operação comercial das linhas 5 e 17. O ativo não faz parte desse processo, como erroneamente afirma o Sindicato dos Metroviários. Não se trata de privatização.

– O Metrô de São Paulo não fez demissões. Ao contrário, o governador Geraldo Alckmin autorizou a contratação de 214 novos técnicos para a operação de suas linhas, sendo 206 de aproveitamento dos candidatos aprovados em concursos públicos e 8 novos oficiais de logística e almoxarifado. Essas vagas somadas às já autorizadas em 2017 ultrapassam 500 novos empregados.

– Quanto à suposta base de trabalho na estação Capão Redondo trata-se de mais uma leviandade do Sindicato, desta vez, colocando em xeque a lisura dos metroviários que trabalham naquela estação.

Os desligamentos são resultado do PDV (Plano de Demissão Voluntária), ação optativa do funcionário. Desse modo, mais uma vez, a STM lamenta a postura do Sindicato dos Metroviários, que tenta induzir a população paulistana ao erro e à desinformação.