Após lockdown, Araraquara tem queda de casos de Covid-19 e de internações em hospitais

Predominância da cepa de Manaus gerou preocupação entre as autoridades de saúde e medo na população; saiba como foram as medidas de restrição que duraram dez dias

  • Por Jovem Pan
  • 13/03/2021 14h20
Divulgação/Prefeitura de AraraquaraCidade de Araraquara viveu lockdown de dez dias, entre 21 de fevereiro e 2 de março

Araraquara, cidade localizada a 250 km de São Paulo, viveu uma montanha-russa nas últimas semanas. Vendo o número de casos aumentar e o sistema de saúde próximo de sua capacidade máxima, a prefeitura decretou lockdown no dia 20 de fevereiro de 2021. A decisão gerou polêmica e causou problemas severos de desabastecimento, mas o sufocamento do sistema de saúde do município e, principalmente, o medo espalhado com o aparecimento da variante de Manaus, fizeram com que grande parte da população respeitasse as medidas. “Foi um mal necessário. Foi difícil, no começo todo mundo se revoltou, mas depois a maioria entendeu. Teve também [a mutação do] vírus de Manaus que causou pânico e ajudou as pessoas a ficarem em casa”, disse a aposentada Lucia Melo, 63, moradora do bairro Vila Xavier. De acordo com as autoridades araraquarenses, a população respeitou a medida, e o resultado pôde ser visto nesta semana, quando a cidade registrou queda na média móvel de novos casos de Covid-19. Segundo a prefeitura, a média de novos casos diários caiu de 189,57, no começo do lockdown, para 108, nesta semana, uma diminuição de 43%. Apesar de continuar alto, o número de internações também registrou redução, indo de 247 pacientes, maior número desde o início da pandemia, para 177 (redução de 28%).

A cidade também registrou queda em outros indicadores. De acordo com a prefeitura, o número de pessoas isoladas que foram infectadas pelo novo coronavírus caiu de 1.512 para 635 durante as restrições, redução de 58%. A evolução também é percebida quando são analisados os dados das semanas epidemiológicas. Entre 15 e 21 de fevereiro, por exemplo, foram registrados 1.327 casos. Entre 22 e 28 do mesmo mês, as autoridades contabilizaram 1.120 infecções. Na semana seguinte, entre os dias 1º e 7 de março, o número desceu para 945. A tendência é que entre os dias 8 e 14, caia ainda mais. O índice de testes positivos da doença também caiu, indo de 53%, em 16 de fevereiro, para 20%, em 10 de março. Mas afinal, quais medidas foram adotadas?

Como funcionou o lockdown?

Agindo de forma independente de outros municípios, Araraquara determinou o lockdown na cidade, permitindo que apenas farmácias e unidades de saúde funcionassem. Por dez dias, entre 21 de fevereiro e 2 de março, a circulação foi permitida apenas para trabalhadores dos serviços em funcionamento e de pessoas procurando atendimento médico. Supermercados ficaram fechados por seis dias funcionando apenas via delivery até 27 de fevereiro, quando puderam reabrir as portas. O transporte público também não funcionou neste período. Atividades como igrejas, escolas e restaurantes trancaram as portas. Ao justificar a adoção do lockdown, a prefeitura afirmou que as medidas visavam desafogar o sistema de saúde, que viu a curva de contágio aumentar rapidamente e a ocupação e UTIs chegar a 100%. A principal causa desse aumento era a circulação de nova variante do coronavírus, a P.1., que foi descoberta em Manaus e tem uma circulação mais rápida, afetando também os jovens.

Após o fim do lockdown, a cidade não flexibilizou as restrições e permitiu apenas a reabertura de determinados estabelecimentos. O município permaneceu na fase vermelha do Plano São Paulo, assim como todas as regiões do Estado. Apenas serviços essenciais puderam abrir. A partir da próxima segunda-feira, 15, todo o Estado de São Paulo entrará em um novo estágio do Plano SP, chamado de “Fase Emergencial”. Atividades que vinham sendo permitidas, como cultos em igrejas, aulas presenciais em escolas e partidas de futebol, serão suspensas. Supermercados, padarias, farmácias e outros estabelecimentos similares poderão funcionar normalmente. A recomendação das autoridades de saúde é para que as pessoas fiquem em casa, saiam apenas se for extremamente necessário (trabalho, atendimento médico ou compra de suprimentos), evitem aglomerações e utilizem máscara de proteção.

‘Medida tem consequências, mas preserva vida”

Paulo Inácio da Costa, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e responsável pela unidade de Araraquara do Laboratório da Rede Unesp de Diagnóstico para Covid-19, disse em uma transmissão ao vivo que as medidas de restrição adotadas pela prefeitura foram “importantes” e destacou que, apesar de ter consequências, o lockdown foi essencial para a “preservação da vida”. “A gente vinha com aumento expressivo de casos positivos da Covid-19. Isso se agravou no final de janeiro para o começo de fevereiro, o que culminou com o decreto. Vínhamos com 45% a 50% de amostras positivas no município e, a partir de março, houve redução para 30%, 20%. Uma atitude restritiva, que tem as suas consequências, mas a consequência maior foi a preservação da vida, da saúde das pessoas, e a diminuição de internações e de casos graves”, explicou o professor. Paulo Inácio disse também que a ausência de medidas traria complicações à cidade, uma vez que faltariam leitos e profissionais de saúde. “A gente tem que pensar na exaustão do sistema. Não só em leitos de enfermaria e de UTI, mas a exaustão dos profissionais da saúde que já vêm, há um ano, em uma luta constante. Isso traz um grande problema. Não ter medidas como essa [isolamento] levaria a um caos muito grande em Araraquara”, continuou.

A secretária municipal de Saúde, Eliana Honain, que é coordenadora do Comitê de Contingência do Coronavírus de Araraquara, disse que o grupo não viu outra possibilidade além de decretar lockdown ao perceber que 93% das pessoas contaminadas na cidade estão com a variante de Manaus. “Quando o Comitê observou o crescente número de pessoas contaminadas e tomou ciência de que a variante de Manaus estava presente em Araraquara, e 93% das pessoas contaminadas em Araraquara estão com essa variante, o Comitê disse: ‘não tem outra alternativa’. A ciência nos diz qual é o caminho a ser feito. Existem duas alternativas para o controle do coronavírus. Primeiro, a vacina, que é uma resposta do governo federal. Não tendo a vacinação em massa, o outro caminho é o isolamento social”, afirmou. Tanto Eliana quanto Paulo Inácio reforçaram que o momento não é para relaxar e que, com a vacinação em ritmo abaixo do ideal, o distanciamento social segue sendo a principal aposta para combater a doença.