Bolsonaro incomoda ‘centrão’ com articulação sem líderes partidários

Causa desconforto entre líderes do “centrão” o modelo de negociação adotado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro para compor o primeiro escalão do novo governo.

  • Por Jovem Pan
  • 25/11/2018 10h25
Igo Estrela/Estadão ConteúdoPresidente eleito disse que seu critério para formar governo "é técnico, não festa"

Causa desconforto entre líderes do “centrão” o modelo de negociação adotado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro para compor o primeiro escalão do novo governo. Ele colocou de lado dirigentes de DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade para tratar de pastas e cargos diretamente com deputados que representam segmentos econômicos e sociais.

Eleito na chapa dos nanicos PSL e PRTB, Bolsonaro não teve apoio de siglas tradicionais de centro. Assim, ele colocou em prática uma promessa de campanha antes mesmo de assumir a máquina federal: não seguir o chamado “presidencialismo de coalização”.

Nesse esquema, há loteamento de vagas em troca de apoio congressual, mas dificultando a formação de base parlamentar que garanta votos suficientes para aprovar mudanças constitucionais. “O critério para preencher [os ministérios] é técnico, não é festa. Não vou jogar cargo para cima e quem se jogar na frente pega”, disse Bolsonaro no sábado (24).

Consulta a Russomanno gerou deconforto

A lista de incômodos causados pelo futuro presidente tem como episódio recente uma consulta feita a Celso Russomanno, do PRB de São Paulo, sem o conhecimento do presidente desse partido – Marcos Pereira –, que ficou irritado com a abordagem. Cotado para a pasta de Esporte, Turismo e Cultura, o deputado e apresentador tem se aproximado de novatos do PSL.

Outro exemplo é a indicação dos ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura). Os três são parlamentares do DEM, legenda que resiste a integrar oficialmente o governo. Analistas de dentro e fora do Congresso avaliam que a tática de Bolsonaro é arriscada e pode causar grande fragmentação partidária.

“As bancadas temáticas não têm unidade fora de seus temas específicos. Existem também divergências internas dentro das frentes”, disse o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Nos bastidores, dirigentes de partidos dizem que as frentes parlamentares são heterogêneas e que não agregarão votos porque não há relação de liderança entre os núcleos dessas bancadas e os demais deputados. Algumas passam de 200 inscritos, mas muitos dos parlamentares não têm participação efetiva.

Os presidentes das frentes não possuem ascendência sobre os demais integrantes. Já as direções das siglas podem fechar questão e orientar votos em projetos levados a plenário, estando os deputados sujeitos a punições em caso de descumprimento da orientação. “Bolsonaro está montando um governo sem fazer interface com a política. Acho que terá que ser repensado”, afirmou Marcio Marinho (BA), ex-líder do PRB e integrante da comissão executiva do partido.

Centrão apoiou Alckmin

O núcleo do chamado “centrão” – composto por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade – preteriu Bolsonaro no primeiro turno das eleições e apoiou o tucano Geraldo Alckmin (PSDB), que obteve 4,76% dos votos válidos.

No segundo turno, o grupo declarou neutralidade e liberou seus filiados. A maior parte deles fez campanha para o PSL por conta própria. Antes das eleições, o presidente eleito só tentou o apoio formal do PR, por meio da sondagem do nome do senador Magno Malta (ES) para a vaga de vice, ocupada definitivamente por Hamilton Mourão (PRTB).

*Com informações do Estadão Conteúdo