Incêndio no Pantanal: ‘Fogo frio’ poderia ser usado para combater queimadas?

Região está pegando fogo desde o dia 21 de julho; 8.106 focos de incêndio foram registrados no bioma apenas no mês de setembro

  • Por Camila Corsini
  • 04/10/2020 09h00 - Atualizado em 04/10/2020 09h27
EFEA área devastada já representa três vezes o Distrito Federal, com pelo menos 18,6% mil km² do bioma perdido; muitos animais foram mortos

Em chamas desde o dia 21 de julho, as origens reais do fogo no Pantanal ainda são desconhecidas. Fato é que os mais de 8.106 focos de incêndio registrados no bioma apenas no mês de setembro já bateram recordes históricos — esse é o pior mês registrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde que as queimadas começaram a ser monitoradas, em 1998. A área devastada já representa três vezes o Distrito Federal, com pelo menos 18,6% mil km² do bioma perdido. O mesmo período de 2019 registrou menos da metade: 2.727 pontos de incêndio. Em 2018, o número foi ainda menor: 783. O pior mês, até então, tinha sido agosto de 2005 — com 5.993 focos de incêndio.

“A situação calamitosa vista no Pantanal ao longo das últimas semanas foi resultado de uma conjunção de fatores. O ano de 2019 já havia sido bastante difícil, apresentando mais que o quádruplo de focos de calor em relação a 2018 e cerca de 40% acima da média das últimas duas décadas. Em 2020, a situação foi agravada com a redução da reserva de umidade no ar e no solo”, explica o professor da ESEG e doutor em Química Orgânica, Carlos Cerqueira. O professor acrescenta que, durante a temporada seca, que também está apresentando temperaturas mais altas, o espalhamento do fogo é facilitado pelos ventos e pela vegetação ressacada. “Soma-se a isso outros dois fatores: a fiscalização insuficiente, que não consegue impedir que focos de incêndio causados pelo homem sejam contidos antes de saírem de controle e a maior dificuldade da vegetação de resistir ao avanço do fogo após sucessivas queimadas”, completa. De acordo com ele, o sucesso do combate aos incêndios depende fortemente do tempo de resposta: os focos identificados são facilmente extintos, enquanto incêndios de grandes proporções são essencialmente incontroláveis.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já defendeu, em entrevista à Jovem Pan, o uso do “fogo frio” como medida preventiva às queimadas. Cerqueira explica como funciona esse mecanismo. “A queimada controlada é uma estratégia que se baseia no princípio de que, após o incêndio, a quantidade de matéria orgânica combustível diminui consideravelmente. Assim, no caso dessa área ser atingida meses depois, não haveria material orgânico suficiente para alimentar o fogo — que teria menor intensidade e menor capacidade de propagação.” No entanto, segundo ele, a técnica é controversa — já que pode servir de desculpa para incêndios para abertura de pastagens, sob o pretexto de combate a incêndios maiores.

Para a professora do curso de Engenharia Ambiental da PUCPR, Luciene Ribeiro, o uso do fogo frio é possível como forma de prevenção, desde que aconteça com apoio técnico de órgãos públicos ligados à agricultura, pecuária e silvicultura — que possibilita a formação técnica para condução de queimadas controladas para que o fogo não se torne um incêndio florestal. Porém, é preciso tomar cuidado. “A gente tem pessoas que possuem prazer ao acender o fogo e vê-lo tomar conta dos ambientes, tem descuidados que se esquecem de apagar uma fogueira feita para um churrasquinho às margens de um rio, fumantes que jogam a bituca do cigarro ainda acesa em suas caminhadas ao ar livre ou na margem das estradas por motoristas e, ainda, religiosos que, nas suas oferendas, utilizam velas que podem contribuir para um incêndio, se posicionadas indevidamente em ambientes naturais.”

O tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso do Sul, Fernando Carminatti, explica que essa queimada controlada pode ser utilizada pelos produtores rurais, desde que assistido por brigadistas e veículos dotados com fogo. “Nessa estratégia, se queima uma área já determinada pelo órgão ambiental do Estado. Isso pode ser feito por questões econômicas, como manejo da pastagem, ou para queimar a massa vegetal e evitar incêndios posteriores de maiores proporções.” Quando o fogo já se alastrou, os bombeiros podem usar uma técnica indireta para tentar conter as chamas. “Observando as condições de relevo e clima do momento, além da direção dos ventos, pode ser feita uma queima da vegetação. Assim, quando o fogo já propagado encontrar essa queima proposital, as chamas vão se extinguir. Mas essa técnica só pode ser feita por pessoas capacitadas e com experiência, porque pode causar acidentes.”

Conscientização e educação ambiental

De acordo com especialistas, um outro caminho para evitar que o Pantanal e outros biomas passem por situações parecidas é investir em conscientização e educação ambiental. “Por meio disso, é possível educar para a sensibilização e prevenção dos incêndios florestais. Deve ser ensinado tanto nas escolas, em nível formal, quanto em nível informal, como por exemplo em veículos de mídia e ao longo das estradas, em períodos secos, por meio de sinalizadores de risco”, explicou Luciene. Na tentativa de conscientizar a população, pessoas criativas se uniram com o estúdio Squad e criaram o Sons do Pantanal. O vídeo de meditação guiada desafia o espectadores a deixar os olhos abertos por 15 minutos diante de imagens e sons reais da floresta em chamas — acompanhadas de uma voz suave que narra dados recentes do bioma. De acordo com os responsáveis pelo projeto, durante o tempo de uma simples meditação, quase 1 milhão de m² queimaram em média na região em 2020. Além do vídeo, que pode ser conferido neste link, a iniciativa também tem um perfil no Instagram: @sonspantanal.

“Primeiramente, deve-se evitar que a situação atual seja normalizada, ou seja, que a ideia de que os incêndios sempre ocorrem na estação seca e que isso é parte da dinâmica natural do Pantanal. O Pantanal é um bioma de clima tropical úmido, de modo que a vegetação não é adaptada para grandes estiagens e ocorrência de incêndios naturais, como é o caso do Cerrado, por exemplo. A preservação do bioma deve pautar políticas públicas federais, estaduais e municipais com a reversão do sucateamento e desmonte das estruturas legais de fiscalização ambiental, coibindo as práticas que precedem as queimadas, como o desmatamento”, completa Carlos Cerqueira.