É possível contrair Covid-19 entre as duas doses da vacina? Especialistas explicam

Imunidade contra o coronavírus só começa 15 dias após a segunda aplicação; especialistas esclarecem que não há possibilidade da vacina causar a infecção pela doença

  • Por Júlia Vieira
  • 07/03/2021 10h00
WILLIAM ANACLETO/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO - 05/03/2021Especialistas esclarecem que a infecção não pode ser um efeito colateral da vacina

A enfermeira Maria Angélica de Carvalho Sobrinho, de 53 anos, foi imunizada com a CoronaVac no dia 19 de janeiro, mas começou a observar os sintomas da Covid-19 três dias antes de receber a segunda dose, que estava marcada para o dia 16 de fevereiro. A profissional de saúde ficou internada durante alguns dias para que pudesse ser observada pelos médicos mas, segundo a Secretaria de Saúde da Bahia, já recebeu alta, voltou a trabalhar e deverá receber a segunda dose ainda nesta semana. Apesar da recuperação, o caso de Maria Angélica acendeu questionamentos por parte da sociedade. É possível contrair a doença após a vacinação? A infecção pelo coronavírus pode ser um “efeito colateral” do imunizante? O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, Hebert Guedes, explica que existe a possibilidade dos imunizados contraírem o vírus dentro da chamada “janela imunológica”, que seria o intervalo entre as doses. Isso porque os dados de eficácia das vacinas se baseiam em um período de 15 dias, mas só após a aplicação da segunda dose dos imunizantes.

“Quando a gente fala de vacinação, falamos de um esquema vacinal. Quando você toma a primeira e a segunda dose, no início, você não tem títulos tão altos de anticorpos. Você só pode considerar que o sistema vacinal está completo, no mínimo, 15 dias após a segunda aplicação. É possível que você contraia entre as doses porque você não completou o esquema e está no meio da janela imunológica”, esclarece Guedes. “Isso acontece bastante com a gripe. A pessoa toma a vacina e três, quatro dias depois, se infecta. Ela vai ter a doença igual quem não se vacinou, porque ela ainda não está protegida. Formar anticorpos é um processo”, afirma a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi.

No entanto, ambos os especialistas ressaltam que a resposta imunológica é diferente para cada indivíduo. “Estamos falando de uma diversidade muito grande de pessoas que vão ser vacinadas. E, para diferentes pessoas, existem diferentes graus de proteção. Vão ter pessoas que vão estar vacinadas, vão entrar em contato com o vírus e não vão se infectar. Vão ter pessoas que vão se infectar, mas que terão uma infecção mais fraca. E não se descarta o cenário ruim, em que a pessoa pode ser vacinada e adquirir a forma mais grave da doença. Mas essas vacinas que a gente tem administrado diminuem os quadros graves da Covid-19. Então um cenário onde a pessoa seja vacinada, contraia a Covid-19 e tenha sintomas leves, é possível”, diz o professor da UFRJ.

Mônica lembra que as duas vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil, a CoronaVac e a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca, precisam ter duas doses aplicadas para terem a eficácia esperada. A médica aponta, ainda, para o fato de que nenhuma das vacinas produzidas contra o coronavírus até agora têm 100% de proteção, ou seja, existe sim a possibilidade do imunizado, mesmo após as duas doses, contrair o Sars-CoV-2 e desenvolver a Covid-19. “A proteção contra a doença grave, internação e morte, acontece sim. Vimos que a CoronaVac é particularmente importante para eliminar sintomas graves, sintomas que precisem de demanda no sistema de saúde. Não pode-se esperar que todos os vacinados não vão mais contrair a Covid-19. Alguns vão, mas espera-se que essas pessoas vão ter os sintomas atenuados”, afirma. “A grande importância da vacinação é reduzir o número de pessoas que pegam a Covid e reduzir o número de pessoas que tenham a forma grave da doença”, acrescenta Guedes.

A vacina pode causar a infecção?

Segundo Mônica, não. A especialista enfatiza que vacinas são feitas para proteger, não para nos adoecer. No Brasil, nenhuma das vacinas que estão sendo administradas utilizam a plataforma de vírus vivo atenuado. No caso da CoronaVac, a vacina é feita com um vírus morto e inativado por substâncias. “Não tem a menor plausibilidade biológica da vacina causar a doença. As reações que podem dar são de dor local após a aplicação, febre, cansaço, mal estar, que é um estímulo do sistema imunológico, mas feito com o vírus morto”, diz a médica. Guedes explica que muitos testes são realizados em animais e em cultura de células. Em seguida, esse vírus inativado é colocado na cultura para provar que ele não causa mais nenhuma infecção. Além disso, uma nova checagem é feita, com uma dose muito grande de vírus em animais. “Esses testes garantem que esse vírus não é mais infeccioso. Essa é a forma de vacina mais usada, então tem muita capacidade para comprovar que ela é segura. Não pode acontecer da vacina causar a doença e não acontece”, assegura o professor.

No caso da vacina da AstraZeneca, um adenovírus de chimpanzé, que se expressa com proteína Spike, é utilizado. Guedes garante que não existe a possibilidade de infecção nesses casos, pois os vírus usados são não-replicantes. “São vírus que não tem capacidade de gerar novas partículas virais. Quando a gente faz a imunização, esse adenovírus vai e joga o material genético da Spike, que é uma proteína da espícula do coronavírus. Então, a produção da proteína Spike é induzida, gerando uma resposta imune. Só que esse vírus que entrou não gera novas partículas virais.” Em uma infecção com o vírus normal, explica o pesquisador da Fiocruz, ele entra na célula e começa a estimular a produção de proteínas, mas essas proteínas vão gerar novas partículas virais, ao contrário do adenovírus da AstraZeneca. Hebert alerta, ainda, que as medidas de segurança e uso de proteções individuais continuam sendo necessárias, mesmo com as vacinas. “A gente não sabe ainda a capacidade que esses imunizantes têm de proteger contra as novas variantes do coronavírus. Então o uso do equipamento de proteção, mesmo entre os vacinados, é obrigatório. O imunizante a gente sabe que protege contra a forma original, mas a gente não sabe o quanto protege contra as variantes”, completa o professor.