Estado de SP registra aumento de casos de Covid-19 em crianças até 10 anos

Indaiatuba, São José do Rio Preto, Carapicuíba e Caieiras registraram os maiores crescimentos em novembro em comparação ao mês de outubro

  • Por Júlia Vieira
  • 17/12/2020 15h25 - Atualizado em 17/12/2020 18h46
Cecília Fabiano/Estadão ConteúdoCrianças até 10 anos, na maioria dos casos de coronavírus, são assintomáticas

O estado de São Paulo registou aumento no número de internações por Covid-19 de crianças com até 10 anos em novembro. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, em outubro, foram internadas seis crianças de 0 a 9 anos na rede pública municipal de São Paulo. Entre 10 e 14 anos, foram duas internações. No total, foram oito internações infantis por Covid-19. Já em novembro, nove crianças de 0 a 9 anos foram internadas na rede municipal e uma de 10 a 14 anos, totalizando 10 internações. Não há óbitos confirmados por coronavírus em indivíduos de 0 a 14 anos com início de sintomas nos meses de outubro e novembro, segundo o banco de dados do SIVEP-Gripe. No restante do estado, em relação ao número de casos confirmados na faixa de 0 a 9 anos, na comparação entre outubro e novembro, Indaiatuba teve alta de 237,5 % (16 para 54), São José do Rio Preto de 153% (75 para 190), Carapicuíba de 137,5% (16 para 38), Caieiras de 100% (8 para 16), Sorocaba de 57% (19 para 30), São Bernardo do Campo de 57% (35 para 55) e Campinas de 56% (41 para 64). Os dados foram organizados pelo projeto Info Tracker, ferramenta que reúne estatísticas e processa os dados sobre o coronavírus em São Paulo, à pedido da Jovem Pan.

Analisando o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde é possível ver o crescimento nos casos de crianças com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) hospitalizadas no Brasil. Na semana epidemiológica 40, que corresponde ao período de 27 de setembro a 3 de outubro, na faixa etária até um ano, eram 2.567 menores hospitalizados com SRAG. Entre 1 a 5 anos, eram 2.707. Na semana epidemiológica 49, que corresponde ao período de 29 de novembro a 5 de dezembro, o número de crianças com menos de 1 ano hospitalizadas com SRAG aumentou para 3.159. Na faixa etária entre 1 e 5 anos, o número subiu para 3.642 internações. Segundo Marcio Nehab, pediatra e infectologista do Instituto Fernandes Figueira (IFF) da Fiocruz, a situação do Brasil não é diferente da que os Estados Unidos vivenciou em agosto. “Se você for pegar dados de exames de PCR/RT lá atrás no início da pandemia nos Estados Unidos, você vai ver que menos de 1% dos casos eram diagnósticos em crianças. Esses números de casos foram aumentando absurdamente e, agora, alguns estados americanos tem mais de 15% dos casos relatados em pediatria”, conta. “Então aumentou 15 vezes, mas mesmo assim continuam sendo casos mais amenos, benignos, sem complicações, sem internações e sem óbitos na grande maiorias das vezes”, compara o médico.

Para traçar hipóteses sobre o aumento, Nehab diz que é preciso fazer uma retrospectiva histórica do que aconteceu na pandemia. “Lá atrás, os pais de crianças pequenas ficaram apavorados. Ninguém sabia se a Covid-19 seria tão ruim para crianças quanto é para idosos e pessoas com comorbidades. O que se fez? Se prendeu todas as crianças. Quando houve uma desaceleração no número de casos e uma flexibilização das medidas de distanciamento, as pessoas começaram a relaxar os cuidados. As crianças começaram a ir para parques, praças, campos, escolas, ou seja, as crianças sofreram as consequências”, sugere o pediatra. O aumento de casos não aconteceu só com crianças, mas elas estavam menos expostas ao vírus no começo da pandemia, o que pode ser uma possibilidade para o crescimento notável nos últimos meses. A dificuldade de mapear os casos de Covid-19 entre crianças de até 12 anos é que, em sua maioria, elas são assintomáticas. “É incrível que 30%, 50% dos caso confinados por PCR/RT são totalmente assintomáticos, o que dificulta muito o diagnóstico em pediatria”, diz. De acordo com o pediatra, os casos de coronavírus em pediatria são, na infinita maioria, muito amenos. “Não passa de resfriado comum ou simulando uma gastroenterite aguda com dor abdominal, diarreia, as vezes vômitos, febre ou sintomas respiratórios como catarros, coriza, tosse, obstrução nasal e, algumas vezes, lesões de pele”.

Volta às aulas presenciais

O infectologista pediátrico assegura que a volta às aulas não foi o motivo para o aumento no Brasil. Nehab relembra que nas grandes capitais como São Paulo, apenas atividades extracurriculares opcionais voltaram, e no Rio, apenas as escolas particulares. E, para ele, as escolas privadas não tem uma representatividade muito grande no todo para ter causado o crescimento observado em novembro. “A literatura e estudos provam que a transmissão dentro das escola não tem nenhuma comparação com o nível de transmissão em outros ambientes. Existem surtos dentro das escolas? Existem, mas existem em outros lugares também”, comenta o médico. “A escola é um ambiente controlado, diferente de uma praça ou clube, dá para monitorar os casos”, explica Nehab. O médico considera que a escola pode aplicar os protocolos de segurança de forma mais eficiente do que em outros lugares. Outra vantagem é que o rastreamento de casos confirmados e suspeitos é muito mais fácil de ser feito em uma comunidade fechada como um colégio do que, por exemplo, em um shopping. “O grande problema é diferença de orçamento entre a escola privada e a pública para a adoção das medidas de segurança”, lamenta. O médico enfatiza que, para que a escola seja um ambiente protegido, é necessário investimento do governo, compra de equipamentos, contratação de mais profissionais e o afastamento do grupo de risco das atividades presenciais.