Gol, Latam e Azul: As estratégias das empresas aéreas para reverter o cenário caótico

Entre acordos bilionários e demissões de funcionários, companhias traçam planos para driblar a crise causada pela pandemia, mas, segundo especialistas, tarefa não será fácil

  • Por Giullia Chechia Mazza
  • 09/07/2020 07h05 - Atualizado em 07/08/2020 13h27
JOãO NOGUEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOAeronaves paradas no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, devido à pandemia do novo coronavírus

O setor aéreo brasileiro enfrenta uma das maiores crises de sua história em meio à pandemia do novo coronavírus. As companhias encaram a necessidade de se reinventarem para sobreviver. Entre acordos bilionários e demissões de funcionários, as empresas Gol, Latam e Azul, as gigantes do mercado, lançam mão de estratégias a fim de reverter o cenário caótico, mas não será fácil. Nesta quinta-feira (9), por exemplo, a Latam Brasil anunciou que integrará o processo de recuperação judicial em andamento nos EUA. Em entrevista à Jovem Pan, a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) revelou que, apenas neste ano, o segmento nacional terá a receita reduzida em US$ 10,2 bilhões — declínio de 53% na comparação com o ano anterior. A crise no setor aéreo ainda será responsável pela queda de US$ 5,6 bilhões do PIB global. “O efeito da pandemia sobre o setor foi brutal. Em questão de semanas, as empresas viram reduzir bruscamente a demanda e tiveram de mudar seus mecanismos de funcionamento sem um prazo definido para retomar à normalidade das atividades”, diz Fabio Falkenburger, especialista no setor aéreo e sócio de infraestrutura do escritório Machado Meyer. 

A crise reduziu em mais de 90% o número de voos no Brasil e, ainda que as empresas estejam planejando a retomada das operações, as expectativas a curto prazo não são promissoras. “As companhias terão de considerar a realidade do novo normal porque tanto o comportamento dos passageiros como o mercado vão mudar. Medidas profiláticas e eficiência operacional serão exigidas”, explica Falkenburger. No entanto, a estabilização do ramo não depende apenas da organização ou da gestão das empresas. “A participação de todas as stakeholders é fundamental para a volta desta indústria. O Estado precisa atuar ativamente na parte regulatória e financeira — seja por meio da redução da carga tributária ou mediante financiamentos, as companhias devem buscar maior eficiência operacional e redução dos custos. Os fornecedores, financiadores e até mesmo os passageiros precisarão colaborar.”

Os próximos passos

De acordo com a IATA, a retomada do setor se iniciará tímida ainda no segundo semestre deste ano e se dará, em primeiro momento, nos mercados domésticos. Neste mês, a alta de 95% dos voos nacionais da Gol e o aumento de 47% da demanda doméstica da Azul apontam indícios desta nova tendência que será, também, impulsionada pelo fechamento de fronteiras e restrições de acessos a outros países. As tarifas devem sofrer quedas para atrair o público, com a maior parte dos voos sendo de curta duração. O primeiro a retornar será o público de negócios. As pessoas, porém, devem adiar a volta do voo de turismo, até confiarem nos protocolos de segurança das companhias e sentirem que a pandemia está sob controle. Falkenburger prevê que o setor aéreo se estabilizará apenas no segundo semestre de 2021.

Realidade das companhias aéreas

O mercado aéreo brasileiro é concentrado uma vez que, até os últimos dias, apenas quatro empresas dominavam o setor, sendo elas: Gol, Latam, Azul e Avianca. Entretanto, nesta segunda-feira, 6, a Avianca deixou de integrar o grupo após pedir falência. A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira, 8, o texto-base da medida provisória que prevê socorro a companhias aéreas e a possibilidade de pilotos de avião e trabalhadores do setor sacarem recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). A proposta vai ao Senado. De acordo com o Sindicato Nacional dos Aeroviários (SNA), as empresas aéreas que operam no Brasil já demitiram 2.000 aeroviários – aqueles funcionários que trabalham em solo – desde o início do agravamento da pandemia em março. Veja abaixo a situação de cada uma das empresas aéreas:

Avianca: um desfecho esperado
Nesta segunda-feira, 6, a Avianca Brasil (Oceanair Linhas Aéreas) pediu à Justiça a falência da companhia. A empresa estava em recuperação judicial desde dezembro de 2018, quando declarou não possuir condições de pagar as dívidas estimadas, à época, em R$ 494 milhões – depois o montante foi corrigido para cerca de R$ 2,7 bilhões.

Azul
Segundo fontes internas, a companhia Azul demitiu 1.000 funcionários, cerca de 7% do total, para driblar as consequências econômicas da pandemia da Covid-19. Além do corte de pessoal, a empresa abriu um programa envolvendo demissão voluntária (PDV), aposentadoria antecipada e licença não remunerada.

Latam
A fim de aumentar a eficiência operacional, a Latam Brasil firmou um acordo de compartilhamento de voos (codeshare) e de programas de milhagem com a Azul. A parceria, que inicia as operações em agosto, inclui 50 rotas domésticas não sobrepostas de/para Brasília (BSB), Belo Horizonte (CNF), Recife (REC), Porto Alegre (POA), Campinas (VCP), Curitiba (CWB) e São Paulo (GRU). Nesta quinta-feira, o grupo também anunciou que integrará a recuperação judicial nos EUA. No entanto, garantiu que os voos serão honrados e os funcionários receberão normalmente.

Gol
O acordo fechado entre a Smiles e a Gol, para a compra antecipada de R$ 1,2 bilhão em passagens aéreas, tem fomentado uma tensão interna na companhia. Apesar de garantir um respiro momentâneo, a parceria acirrou a disputa entre os acionistas da empresa de programa de fidelidade. Os sócios minoritários da Smiles entrarão com um pedido de liminar na Justiça para barrar a operação.