Impeachment de Dilma, 4 anos: Mobilização popular foi essencial no processo

Carla Zambelli e Carina Vitral analisam a força dos atos pró e contra a petista; ‘Conversava com parlamentares e ouvia que a queda de Dilma era impossível’, diz Zambelli

  • Por Giullia Chechia Mazza
  • 04/09/2020 07h00
Imagem: Jovem PanEm 13 de março de 2016, o Brasil presenciou a maior manifestação de sua história

Seria difícil prever que, mesmo após tanto tempo, o impeachment de Dilma Rousseff (PT) continuaria influenciando os caminhos da política. Nesta segunda-feira, 31, completaram-se quatro anos da conclusão do processo que cassou o mandato presidencial da petista, reeleita em 2014 por mais de 54 milhões de brasileiros e deposta com índice de aprovação popular de apenas 9%, segundo o Ibope. Enquanto as ruas do Brasil ferviam ocupadas por opositores e apoiadores, em 31 de agosto de 2016, às 13h30, 61 senadores tornavam Dilma a segunda presidente a sofrer impeachment no país. Além de deixar fortes marcas institucionais, a mudança também afetou a maneira como os brasileiros se relacionam com a política no cotidiano, impulsionando um movimento de maior mobilização popular. Em entrevista exclusiva à Jovem Pan, a deputada federal Carla Zambelli (PSL), fundadora do Movimento Nas Ruas, e a ativista Carina Vitral (PCdoB), presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) entre 2015 e 2017, refletem sobre a influência das manifestações no afastamento de Dilma da Presidência da República. 

Como Carla Zambelli enxerga a queda da petista

“Quando penso sobre o período, a primeira memória que me vem à cabeça é que, em dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, já havia acolhido o pedido de impeachment, precisei passar por uma cirurgia de extração de tumor cerebral. Meu único receio naquele momento era entrar em coma e perder a queda da Dilma. A primeira pergunta que fiz quando acordei da operação foi: ‘A Dilma já caiu?’, conta Carla Zambelli. A deputada fundou em 2011 o Movimento Nas Ruas, que tem por objetivo o combate à corrupção e impunidade. O Nas Ruas alcançou notoriedade como um dos principais organizadores das manifestações populares contra o governo petista, adotando, em forma de protesto, o uso de bonecos infláveis representando políticos brasileiros durante os atos, os pixulecos. Junto a outras organizações, levou milhões de manifestantes vestidos de verde e amarelo às ruas pelo impeachment de Dilma entre 2015 e 2016.

A deputada federal considera que os 13 anos do Partido dos Trabalhadores ocupando a Presidência da República (2003-2016) foram, de certa forma, importantes. “Apesar de ter sido um período bastante obscuro e problemático em relação à corrupção e roubos, a população precisou de todos esses escândalos para despertar. Começamos a ocupar as ruas em 2011 contra a corrupção e conseguimos o impeachment em 2016.” Zambelli afirma que a queda de Dilma não teria ocorrido sem a mobilização popular. “Vivi a rua e o Congresso, conversava com os parlamentares e ouvia que o impeachment era impossível, por conta da negociação de cargos realizada pelo governo. No ano de 2011, fizemos um pequeno movimento nas ruas. Em 2012, ele se intensificou, e em 2013, explodiu com a manifestação dos 20 centavos, que não ocorreu devido ao aumento da tarifa de ônibus, mas pelos bilhões desviados. As manifestações esfriaram no ano de 2014, mas retomaram o fôlego em 2015. Finalmente, em 2016, tivemos a maior mobilização popular já vista no Brasil”. Os atos anti-Dilma ganharam força nacional nos dias 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015. Em 13 de março de 2016, cerca de um mês antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, o Brasil presenciou a maior manifestação de sua história, com 3,6 milhões de pessoas, segundo o levantamento da Polícia Militar e, de acordo com os organizadores, 6,9 milhões.

“Os protestos tiveram períodos de altos e baixos, mas cada vez que voltavam, se tornavam mais fortes e impulsionavam as decisões do Congresso. Mandamos o recado aos parlamentares com a realização de todos os atos: ‘Olha, ou vocês derrubam a Dilma, ou toda essa gente que está na rua pode começar a se manifestar contra vocês’. Assim, eles entenderam o aviso e passaram a defender o impeachment.” A deputada federal atribui grande parte do sucesso dos protestos ao crescimento das redes sociais já que, nelas, “a população pôde compreender os motivos para se manifestar”. Para a militante, o impeachment e a ocupação das ruas representam um processo de desenvolvimento da cidadania e, por isso, defende que as manifestações pacíficas sempre devem acontecer, independente de sua natureza ideológica. “Não há democracia saudável se o cidadão não cobrar seus representantes. Não interessa se é direita ou esquerda. Considero extremamente importante que as pessoas não percam essa necessidade de ir para as ruas, usar as redes sociais, escrever cartas e e-mails para cobrar os servidores públicos, afinal, estamos aqui para servir a população.”

Desde o início de seu mandato em 2019, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é constantemente alvo de manifestações populares contrárias e favoráveis ao governo. A oposição constantemente ocupa as ruas em protesto contra as acusações e investigações que envolvem Bolsonaro e sua família. Os apoiadores, por sua vez, manifestam força e defendem o presidente. Representante do governo, Carla Zambelli afirma que a mobilização popular não interfere na governabilidade de Bolsonaro. “Se as pessoas não concordam com determinadas atitudes, elas têm o direito de se manifestar. Essa liberdade é importante, precisa ser preservada e respeitada. Não vejo problema dessas manifestações atrapalharem o governo. Dois elementos que, de fato, atrapalham a governabilidade são os protestos antidemocráticos que destroem o patrimônio público e a interferência de outros poderes no Executivo. Eu, por exemplo, sou alvo de um inquérito do Supremo Tribunal Federal que investiga atos antidemocráticos, mesmo nunca praticando nenhum ato como esse”, afirma.

Carina Vitral vivenciou o processo junto com Dilma

“A presidenta Dilma sabia que estava sendo vítima de uma conspiração. As pessoas se referem a ela como uma pessoa dura, mas, na verdade, é uma pessoa forte. A sociedade machista não está acostumada com mulheres que demonstram sua fortaleza, mas isso não quer dizer que, por serem fortes, não sentem. O golpe foi sentido na vida de cada mulher que viu uma presidenta ser eleita e, depois, derrubada”, diz Carina Vitral. A ativista ocupava a presidência da União Estadual dos Estudantes (UNE) durante o impeachment, esteve ao lado de Dilma em todo o processo e foi uma das responsáveis por organizar as manifestações populares em defesa da presidente, “nos aproximamos em um exercício de solidariedade.” A pré-candidata a vereadora em São Paulo lembra da cena que, segundo ela, a fez compreender que não se tratava de um processo de impeachment qualquer. “Não esqueço do adesivo que a direita fez com a justificativa de protestar contra o aumento da gasolina. Nele, Dilma é retratada com as pernas abertas e com o cano da bomba de gasolina entrando em sua vagina. Isto me mostrou que o golpe era, sobretudo, político. Tinha um requinte de misoginia muito forte. A presidente não era apenas questionada politicamente, em sua autoridade, mas também em sua condição de mulher.” 

Carina afirma que a deposição de Dilma se deu por uma somatória de fatores, como a perda de governabilidade da presidente e a mobilização social. “De dentro para fora, parte do Congresso e das elites não aceitavam mais o projeto mudancista e queriam colocar, no meio de uma crise econômica, a conta nas costas dos trabalhadores, mas Dilma tinha restrição a isso. De fora para dentro, o impeachment se deu na medida em que os setores da sociedade civil começaram a propagandear as dificuldades do governo, a fazer abertamente oposição e atacar a sua reputação.” A ativista também considera as manifestações contrárias ao governo e, sobretudo, a maneira como foram organizadas, fator chave no processo. “Os protestos aproveitaram uma onda de rejeição à política e foram liderados por ditos movimentos sociais de direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre), que atuou como agência de marketing para insuflar a população contra o governo. Além disso, grande parte deles não existiam antes do processo de impeachment, então foram criados e financiados por setores que, até hoje, não temos conhecimento. Mas, por exemplo, a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) estava notadamente envolvida, além de financiamentos internacionais.” 

Para a militante, a disputa das ruas entre a direita e a esquerda foi acirrada. “Depois de junho de 2013, da manifestação dos 20 centavos, a rua se tornou um elemento da correlação de forças porque, antes disso, somente a esquerda se organizava em manifestações por meio dos movimentos sociais. Neste sentido, a direita sabia que faríamos uma resistência ao golpe e criou seus instrumentos para inflamar os cidadãos. Outro fator que ajudou neste processo foram as redes sociais porque, uma vez que a direita não possuía movimentos orgânicos, usavam das redes privadas para impulsionar discursos de ódio e alcançar muitas pessoas. O que fazemos com trabalho de base, eles fizeram com financiamento.” Neste sentido, ela defende que apenas a mobilização dos apoiadores nas ruas não foi suficiente para impedir a deposição da presidente. “Nos articulamos nas frentes dos movimentos sociais que a UNE participava e assim fizemos uma resistência bonita, nós conseguimos empatar nas ruas. O problema é que só as ruas não resolveram. Dependíamos dos votos do Congresso, que não são pautados pelas ruas, nem sensíveis pelas lutas, são guiados por interesses privados. Só depois que a votação aconteceu percebemos que não se tratava de base aliada ou oposição, mas que o governo havia sido liquidado em sua base parlamentar.

Após quatro anos do impeachment de Dilma Rousseff, Carina Vitral acredita que o melhor para o Brasil neste momento seria a queda de Jair Bolsonaro. “O presidente à frente do governo representa uma ameaça maior do que a instabilidade política e econômica causada por um processo de impeachment. Por exemplo, a gestão de Bolsonaro frente à pandemia, em minha visão, está sendo genocida. O país está desgovernado, se não fossem os governadores e prefeitos, o Brasil estaria abandonado em meio a uma pandemia.” A ativista acredita que ainda não há clima para isto, mas que pode surgir no futuro. “O impeachment, por mais que seja um instrumento jurídico para inviabilizar um presidente da República, depende dos votos do Congresso Nacional e, atualmente, Bolsonaro ainda tem o apoio para se manter no cargo, apoio que é fruto de nomeações e acordos com o Centrão. Para que haja impeachment, dependemos de uma perda de governabilidade e pressão social”, conclui.