Venda de vinhos nacionais dispara na pandemia com dólar alto e isolamento

Consumo de rótulos brasileiros aumentou 66%, enquanto importados tiveram alta de 8%; vinícolas aproveitam momento para fidelizar novos clientes

  • Por Gabriel Bosa
  • 23/08/2020 07h00
Alessandra Kianek/Jovem PanAdega da vinícola Miolo, em Bento Gonçalves (RS); apesar de alta, 8 em cada 10 garrafas vendidas no país são de rótulos importados

A pandemia do novo coronavírus transformou o hábito de consumo dos brasileiros, seja pelas restrições do isolamento social ou pelo encarecimento de produtos pressionados pela alta do dólar. O mercado de vinho ilustra bem esse cenário. O consumo de rótulos finos nacionais cresceu 66,4% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2019, segundo dados compilados pela Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul (ABS-RS). Somente entre abril e junho — período mais agudo da pandemia —, a alta foi de 86,4%. Em comparação, vinhos finos importados registraram alta de 8% nos seis primeiros meses de 2020, em relação ao primeiro semestre do ano passado.

A maior busca pelo produto nacional é explicada pelos reflexos causados pela pandemia. O fechamento das fronteiras para evitar a disseminação da Covid-19 dificultou a compra de produtos internacionais, ao mesmo tempo em que a desvalorização do real diante do dólar tornou os importados mais caros. “O valor do vinho nacional ficou mais acessível na comparação com os internacionais”, afirma Deunir Argenta, presidente da Uvibra (União Brasileira de Vitivinicultura) e sócio-proprietário da vinícola Luiz Argenta. Além da questão financeira, o brasileiro está menos restritivo com os vinhos nacionais. “Havia um certo preconceito com os vinhos nacionais, mas isso está diminuindo. Se for comparar o custo-benefício, os vinhos brasileiros são superiores aos internacionais.”

Na soma dos rótulos nacionais e importados, a alta do consumo é de 14,6%, o que representa o aumento de 8 milhões de litros no primeiro semestre de 2020 (65,5 milhões de litros) ante o mesmo período do ano passado (54,5 milhões de litros). “Está bem claro que esse aumento é referente ao consumo caseiro. Com os restaurantes e hotéis fechados, as pessoas estão consumindo muito mais em casa”, afirma Adriano Miolo, superintendente da vinícola Miolo, de Bento Gonçalves, na região da serra gaúcha. Para o enólogo, a mudança de hábito dos brasileiros também está relacionada à valorização dos produtos nacionais. “Durante esse período da pandemia, houveram muitas campanhas para a promoção do mercado solidário. Isso influenciou muito, além dos varejistas também terem investido no comércio online”, explica.

Apesar dos números positivos, os especialistas afirmam que o mercado nacional ainda tem muito o que avançar para ficar próximo do das vendas de rótulos internacionais. Os vinhos importados ainda representam 82,7% de todas as garrafas comercializadas no país, ou seja, a cada 10 garrafas consumidas, 8 são de fora. De acordo com Miolo, a proporção deixa os índices deste ano no mesmo patamar de 2016, quando a venda de vinhos nacionais já vinha em queda por dois anos consecutivos. “Estamos muito longe do mercado pré-crise de 2014, quando as vendas de nacionais chegavam a 30%.” Já Argenta afirma que é preciso conter a euforia e focar na fidelização dos novos clientes. “A alta deve se manter pelos próximos meses, ou ao menos até quando durar a pandemia e o dólar continuar caro. Mas, depois que isso passar, acho difícil as vendas se manterem nesse patamar.”

Se o confinamento das pessoas fez crescer o aumento do consumo de vinhos, o efeito é completamente oposto no mercado dos espumantes. O consumo da bebida símbolo de comemorações e eventos despencou por causa das restrições causadas pelo isolamento social. Segundo dados da ABS-RS, o consumo de importados e nacionais caiu 26,2% no primeiro semestre deste ano. Entre abril e junho, o tombo foi ainda maior: 39,7% em comparação ao mesmo período de 2019. “Os espumantes, pelo seu caráter festivo, sentiram o período da pandemia, onde não foram realizadas festas, eventos, formaturas e comemorações em geral”, afirma Orestes de Andrade Júnior, presidente da ABS-RS.