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Da autocobrança ao esgotamento: como a busca pelo alto desempenho afeta o corpo e a mente

Especialistas analisam os efeitos da pressão por produtividade, a transformação do lazer em obrigação e o hábito de adiar o sono para ter algumas horas de tempo livre

Ana Carolina Oliveira

exaustão no trabalho
Cobrança por desempenho também aparece no tempo livre, no lazer e até no momento de dormir Freepik

A busca por produtividade deixou de estar restrita ao ambiente de trabalho. A cobrança por desempenho também aparece no tempo livre, no lazer e até no momento de dormir. É um cenário associado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han ao conceito de “Sociedade do Cansaço”, em que o indivíduo passa a cobrar de si mesmo resultados e desempenho.

Para o cientista social e historiador Joel Paviotti, a internet ampliou esse processo. Segundo ele, uma disciplina antes cobrada por instituições como escola e família passou a ser assumida pelo próprio indivíduo, que busca reproduzir modelos de vida considerados produtivos e bem-sucedidos nas redes sociais.

“O resultado é que, se o indivíduo falha, a culpa foi da falta de disciplina dele. Não é vista como uma falha institucional ou social”, explica Paviotti.

Essa cobrança também aparece na relação com o trabalho. Segundo o historiador, parte dos trabalhadores brasileiros, diante da falta de tempo livre, encontra no trabalho informal uma alternativa que parece oferecer mais autonomia. Na prática, porém, ele afirma que o trabalhador pode acabar submetido aos algoritmos dos aplicativos.

“Ele cai na cilada da economia informal, acreditando que não ter um patrão aumenta sua prosperidade. Na verdade, ele troca o patrão tradicional pelo uso de aplicativos [de entregas ou de viagens de passageiros particulares] com algoritmos que o prendem durante 12, 15 horas do seu dia.”

Quando o lazer também vira cobrança

A pressão por desempenho não termina quando acaba o expediente. Para a mentora e psicanalista Jak Rocha, a sociedade passou a associar valor pessoal à capacidade de produzir.

“Por que precisamos performar até no lazer? Parece que não basta mais viver uma experiência, precisamos mostrar que fizemos bem, que evoluímos ou que aquilo produziu algum resultado. Até o lazer virou uma espécie de currículo”, afirma.

Segundo Rocha, essa necessidade de transformar o tempo livre em algo produtivo pode aparecer também na relação com o descanso e com o sono.

Um exemplo é o fenômeno conhecido como “procrastinação da hora de dormir por vingança”, quando a pessoa adia o momento de dormir mesmo estando cansada para aproveitar algumas horas que considera suas.

“A pessoa está exausta, mas não quer dormir porque aquele é o único momento que sente que pertence a ela”, explica.

A cobrança para estar sempre bem

O especialista em Ciência da Felicidade Gustavo Arns também chama atenção para a pressão relacionada às emoções. Segundo ele, existe uma cobrança para que as pessoas estejam constantemente felizes, o que pode levar ao afastamento de sentimentos como tristeza, raiva e medo.

“Parece que temos que estar felizes 100% do tempo. Assim, vamos afogando outras emoções como a tristeza, a raiva e o medo. É preciso dar vazão a essas emoções e nos darmos tempo para a pausa neste tempo de autoexploração”, afirma.

Para Arns, a busca permanente por produtividade também pode alterar a relação das pessoas com o descanso. Ele critica a ideia de dormir apenas para produzir mais e melhor e defende que a vida não seja transformada em uma sequência de tarefas a serem cumpridas.

O esforço também pode ser parte da evolução

A cobrança por desempenho, porém, não é vista da mesma maneira por todos os especialistas. O antropólogo e capitão veterano do BOPE Paulo Storani faz um contraponto à ideia de que a exigência por resultados seja, por si só, responsável pelo esgotamento.

Para ele, o problema está na falta de preparo para lidar com essa exigência.

“A evolução se deu exatamente em razão de alguns indivíduos conseguirem fazer melhor do que os outros. Nós somos a espécie vencedora porque indivíduos e coletividades conseguiram se esforçar, se sacrificar e entregar resultados”, afirma.

Storani argumenta que instituições como escolas e famílias precisam preparar as novas gerações para o esforço, o trabalho em equipe e a tolerância à frustração.

A experiência no Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro é usada pelo antropólogo como exemplo. Segundo ele, a preparação física, psicológica e espiritual faz parte da estrutura necessária para lidar com atividades de alta exigência.

“A ideia de que a alta performance adoece acontece quando a pessoa não está preparada para isso. As pessoas podem se cobrar, é um direito, mas têm que saber se ajudar, buscando terapias e hobbies para distensionar. Se você adoecer, não realiza sua atividade.”

O lugar do descanso

O debate, portanto, não está apenas entre trabalhar ou não trabalhar, nem entre buscar resultados ou abandonar a produtividade. A discussão envolve também a forma como cada pessoa lida com a cobrança e com o tempo fora do trabalho.

Para Jak Rocha, o descanso não deve ser tratado apenas como uma etapa necessária para voltar a produzir.

“Descansar não é simplesmente recarregar a bateria para produzir mais amanhã. Descansar faz parte da vida.”

A ideia também aparece na discussão proposta por Byung-Chul Han sobre a “Sociedade do Cansaço”. Em uma rotina marcada pela cobrança por desempenho, parar de produzir pode deixar de ser visto como perda de tempo e passar a ocupar novamente um espaço próprio na vida.