Avanço da pandemia e frustração com vacinas dão margem para Selic a 2% até 2022, diz Kawall

Apesar de guinada da inflação, pressões inesperadas aumentam os desafios para a retomada da economia e pressionam o Banco Central a congelar a taxa básica de juros no menor patamar da história por mais tempo

  • Por Gabriel Bosa
  • 21/01/2021 08h00
Divulgação / ASA Investments Economista e ex-secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall afirma que fim da prescrição futura pelo Banco Central não simboliza alta da Selic no curto prazo

O avanço da pandemia do novo coronavírus no país e a frustração com a produção de vacinas em território nacional após uma série de entraves para a importação de insumo criam margem para a manutenção da taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, a 2% ao ano até 2022. Na opinião do economista Carlos Kawall, diretor da ASA Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, estes dois fatores, que estavam fora do radar até o fim do ano passado, aumentam as pressões em cima do Banco Central para deixar a Selic ao patamar mais baixo da história já exercidas pelos desafios da retomada da economia com o aumento do desemprego e o fim do auxílio emergencial. Em entrevista à Jovem Pan, Kawall ainda afirma que, apesar de vir acima do esperado, a guinada de 4,52% da inflação em 2020 não representa risco de descontrole. O avanço é reflexo do aumento de setores isolados, e não justifica uma ação da autoridade monetária nacional nos próximos meses. “Temos uma preocupação maior com a recuperação da economia em 2021, e isso deriva de fatores que já levávamos em conta. Mas, há o recrudescimento da pandemia, e as evidências cada vez maiores de que o ritmo de vacinação no Brasil vai ficar abaixo daquilo que se imaginava no fim do ano passado com a realidade da insuficiência de matéria-prima para a confecção das vacinas.”

A previsão de Kawall destoa da maior parte do mercado financeiro, que estima alta da Selic para 3,25% ao ano até o fim de 2021, segundo as projeções de economistas e entidades ouvidas pelo Banco Central no último boletim Focus. Somente uma inesperada reação acelerada da economia brasileira justificaria o descongelamento da taxa de juros e permitiria que o indicador fosse para os patamares estimados pelo mercado atualmente. “Isso significa que a gente está recuperando o nível de emprego e a atividade econômica. A taxa de juros, que está em um nível excepcionalmente baixo, iria para um nível normal, em torno de 3,5% no fim do ano, e para algo ao redor de 6% no ano que vem”, afirma. Por outro lado, os indicativos não dão margem para expectativas tão otimistas, e o comprometimento do governo federal com as contas públicas, simbolizado com a manutenção do teto de gastos, é fundamental para dar razões ao Comitê de Política Monetária (Copom) manter a Selic como está. A ruptura do limite fiscal, ou até mesmo a sinalização de um drible nas regras, deve impactar na disparada do dólar, o que forçará a autoridade monetária a aumentar a taxa de juros para equilibrar o câmbio. O movimento seria antinatural e prejudicial ao país. “Se for pelo mau motivo, que são a indisciplina e o populismo fiscais, significa que não vamos recuperar o nível de atividade, e mesmo assim vai ter de subir juros, e isso seria uma má notícia.”

Apesar da falta de surpresas com a Selic mantida em 2% ao ano por mais um ciclo de 45 dias, Kawall chama a atenção para o recado que o colegiado do Banco Central passou com a retirada do foward guidance, também chamado de prescrição futura, indicando que a política de juros ao piso histórico já cumpriu o seu papel para estimular a economia e pode ser revertida. Essa bandeira, no entanto, não deve ser levantada no curto espaço de tempo. “Não significa um aviso de que a alta de juros está mais próxima. Dá tempo para acompanhar como as coisas vão ocorrer neste primeiro semestre”, afirma. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o medidor oficial da inflação brasileira, continua visto pela ótica de algo isolado, puxado principalmente pela disparada do preço dos alimentos após a “tempestade perfeita” gerada pela mudança de hábitos em meio à pandemia, o fortalecimento recorde do dólar e a recuperação de parte da economia global antes do esperado. Esses mesmos fatores, apesar de despertarem atenção, devem estar presentes nestes primeiros momentos de 2021, mas tendem a se dissipar com as transformações de cenário econômico e social. “Na medida que entramos em 2021 sem o auxílio emergencial, desemprego muito elevado e possível aumento de medidas de distanciamento, voltamos para uma atividade econômica mais fraca e que suavizaria essas pressões vistas no fim do ano passado.”