BC vê inflação acima da meta em 2022 e 2023 e indica juros além do esperado

Comitê de Política Monetária deve elevar Selic para 11,75% no próximo ano

  • Por Jovem Pan
  • 14/12/2021 12h49
Adriano Machado/Reuters Homem em frente ao Banco Central Servidores do BC aprovaram paralisação em assembleia nesta segunda-feira

O Banco Central (BC) passou a enxergar a inflação acima da meta em 2022 e 2023, e indicou que a escalada dos juros deve se intensificar para o patamar acima do esperado, segundo informações divulgadas nesta terça-feira, 14. Os esclarecimentos constam na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada na semana passada — a última de 2021 — e que encerrou com a elevação da Selic de 7,75% para 9,25% ao ano, o patamar mais expressivo desde 2017. Segundo a autoridade monetária, o risco fiscal, ou seja, a capacidade de o governo federal manter os gastos públicos sob controle, indica viés altista para as projeções. “Como consequência, o Copom avaliou que, considerado esse viés devido à assimetria de riscos, suas projeções se encontram acima da meta tanto para 2022 como para 2023”, informaram os membros do BC. Esta elevação deve implicar diretamente na escalada dos juros nos próximos meses. “Diante desse resultado, o Copom concluiu que o ciclo de aperto monetário deverá ser mais contracionista do que o utilizado no cenário básico por todo o horizonte relevante”.

O Copom estima que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerre este ano com alta de 10,2%, basicamente o dobro do teto da meta de 5,25%, com centro de 3,75% e piso de 2,25%. Para 2022, a expectativa ficou em 4,7% — a meta do BC é 3,50%, podendo ficar entre os limites de 2% e 5%. Já para 2023, o Copom estima a inflação em 3,2%. Para o ano, a meta é de 3,25%, com variação de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Com base neste cenário, o Copom prevê passar a Selic para 11,75% ao longo de 2022, e reduzir a taxa para 11,25% no fim do ano. Para 2023, a indicação é de uma sucessão de cortes para até 8% ao ano. “O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista”, informou a ata.

A autoridade monetária reforçou a contratação de nova alta de 1,5 ponto percentual no primeiro encontro de 2022, realizado entre 1º e 2 de fevereiro, elevando os juros para 10,75%. Caso se confirme, será a terceira dose seguida desta magnitude empregada pelo Copom. “Concluiu-se que o ritmo de ajuste de 1,50 ponto percentual, neste momento, é adequado para atingir, ao longo do ciclo de aperto monetário, um patamar suficientemente contracionista para não somente garantir a convergência da inflação ao longo do horizonte relevante, mas também consolidar a ancoragem das expectativas de prazos mais longos”. Segundo a ata, o colegiado chegou a considerar um aumento mais incisivo na reunião da semana passada. “O Comitê também comparou cenários envolvendo ritmos de ajuste maiores do que o de 1,50 ponto percentual com cenários em que a taxa de juros permanece elevada por período mais longo do que a implícita no cenário básico”. A posição, no entanto, foi descartada, e a nova dose de 1,5 ponto percentual foi aprovada por unanimidade.

A escalada dos juros na semana passada geraram críticas de grandes setores da economia brasileira. Enquanto representantes da indústria consideram o avanço do índice “excessivo”, membros do varejo afirmam que o plano de endurecimento monetário é uma “péssima notícia”. O novo acréscimo de 1,5 ponto percentual na taxa básica alarga a caminhada dos juros para dentro do campo contracionista, ou seja, quando a Selic gera dificuldades para o desenvolvimento das atividades econômicas. Os dois segmentos serão atingidos pela reação em cadeia deflagrada pelo aumento do “custo do dinheiro”. Com menos recursos em circulação, as pessoas vão frear o consumo. A queda nas vendas vai fazer com que os comerciantes diminuam a frequência e o volume de encomendas nas fábricas, e assim a indústria passa a produzir menos. O resultado é o desaquecimento geral da economia brasileira, o que deve impactar no aumento do desemprego e no agravamento de índices sociais. O aperto da política monetária ocorre em resposta ao galope mais intenso e as forças mais disseminadas da inflação. O IPCA foi a 10,74% no acumulado em 12 meses encerrados em novembro, ante alta de 10,67% no mesmo período em outubro.