Campos Neto diz que houve disseminação da inflação, e BC prevê estouro do teto da meta

Autoridade monetária revisa expectativa do IPCA para 5,8% em 2021, acima do limite de 5,25%; commodities, bens industriais e crise hídrica pressionam o índice

  • Por Jovem Pan
  • 24/06/2021 14h13 - Atualizado em 24/06/2021 19h01
Antonio Cruz/Agência BrasilPresidente do Banco Central, Roberto Campos Neto considera que pressões são temporárias

Presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto afirmou nesta quinta-feira, 24, que a inflação se disseminou pela cadeia econômica, mas que as pressões ainda possuem natureza temporária. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi a 8,06% nos últimos 12 meses encerrados em maio, quando registrou alta de 0,83% — o maior valor em 25 anos. “Tivemos disseminações industriais, tivemos a parte de commodities com um choque mais persistente do que se imaginava anteriormente, e mais recentemente com um movimento de queda, e que depois retornou mais rápido”, disse o chefe da autoridade monetária ao apresentar os resultados do relatório da inflação do segundo trimestre de 2021. O BC prevê que a inflação feche o ano com avanço de 5,8%, acima do teto da meta de 5,25%, com centro de 3,75% e piso de 2,25%.

A autoridade monetária também apontou a mudança na bandeira tarifária da conta de energia como fator de alta sobre a inflação. “A deterioração do cenário hídrico levou ao acionamento da bandeira tarifária vermelha patamar 1 em maio, antes do previsto, fazendo com que a energia elétrica exercesse a maior contribuição individual para a surpresa inflacionária”, informou o relatório. Segundo Campos Neto, o BC ainda acompanha os reflexos do aumento da pressão do setor de serviços a partir do avanço da vacinação contra o novo coronavírus. As previsões iniciais apontavam para uma transferência da alta inflacionária do consumo de bens industriais para a prestação de serviços. Dados de outros países, no entanto, mostram que isso não está ocorrendo da forma prevista. “O que estamos vendo em grande parte do mundo é que não está caindo rapidamente, e em grande parte até está subindo.”

Na outra ponta, Campos Neto afirmou que a recente valorização do real ante o dólar contrabalanceou o aumento das commodities e da energia. A divisa norte-americana está em trajetória de queda desde abril e voltou a ser cotada abaixo dos R$ 5 pela primeira vez em mais de um ano. De acordo com o chefe da autoridade monetária, a valorização da moeda brasileira é reflexo da reação defasada ciclo de commodities e da recente estabilidade fiscal do país. “São conjuntos de fatores. Parte desse fluxo tem relação com o crescimento maior e com o fiscal mais estável. Acho que também pode ter influência positiva de algumas notícias sobre o andamento de reformas”, afirmou.

O BC voltou a afirmar que a Selic deve receber um novo acréscimo de 0,75 ponto percentual e subir a 5% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. Esta será a quarta vez no ano que o Banco Central faz um aumento desta magnitude. Segundo Campos Neto, as recentes expectativas com a inflação e as estimativas para 2022 levaram a instituição buscar o patamar de juros neutros, ou seja, quando a taxa não estimula nem prejudica a atividade econômica. O mercado prevê que a Selic encerre 2021 a 6,5% ao ano, segundo o Boletim Focus. Campos Neto rebateu as críticas de que a autoridade monetária foi negligente ao iniciar a alta dos juros em março, passando de 2% para 2,75% ao ano. Segundo o presidente, desde setembro do ano passado ocorreram sucessivos choques, e que à época as previsões de inflação do mercado e do BC estavam abaixo da meta.