Impactos da guerra no Brasil vão desde pão e churrasco mais caros ao corte das expectativas do PIB

Confronto no Leste Europeu se mostra presente nos postos de gasolina, supermercados e padarias; otimismo com impulso econômico no fim de 2021 é sufocado pelos impactos negativos

  • Por Gabriel Bosa
  • 20/03/2022 07h00
EFE/EPA/ROMAN PILIPEY conflito entre Rússia e ucrânia Um homem passa por um prédio residencial danificado após um bombardeio no distrito de Podilskyi, em Kiev

Os 10 mil quilômetros que separam o Brasil dos campos de batalha no Leste Europeu não são suficientes para impedir que o confronto tenha impactos na vida deste lado do Atlântico. Prestes a completar um mês, a invasão da Ucrânia por tropas russas leva ao corte das expectativas para a economia brasileira em 2022, ao mesmo tempo que reforça a pressão sobre a inflação e a escalada dos juros. Os efeitos mais imediatos já são notados nos postos de gasolina, supermercados e padarias. A recente alta dos combustíveis e do gás de cozinha é o reflexo mais visível de um movimento que se espalha por uma série de produtos ligados à commodities, principalmente o trigo (matéria-prima do pãozinho), o milho (usado para alimentação de animais, o que impacta diretamente no preço das carnes), além de uma infinidade de outros itens que usam embalagens plásticas e serão atingidos indiretamente pela disparada do petróleo.

A economia brasileira surpreendeu positivamente ao registrar alta de 0,5% no quarto trimestre de 2021 após dois períodos consecutivos de retração. O crescimento deu força para que o Produto Interno Bruto (PIB) subisse 4,6% no ano passado e anulasse as perdas geradas pela pandemia do novo coronavírus. O bom desempenho levou a uma série de revisões para cima da economia em 2022, mas o prolongamento da guerra na Europa sufocou parte desta onda. Após revisar a expectativa do PIB de 0,5% para 0,8% pelo impulso do fim de 2021, a Reag Investimentos refez as análises e debitou na conta do conflito o corte de 0,6 ponto percentual, passando a previsão para leve alta de 0,2% ao fim deste ano. “A diferença pode não parecer grande coisa, mas mostra que vamos ter uma estagnação da economia em 2022”, afirma a economista-chefe da casa, Simone Pasianotto.

O risco de quebra das cadeias de produção globais e a desorganização das rotas de transporte por causa dos conflitos na Ucrânia foram algumas das justificativas usadas pelo governo federal para reduzir a expectativa do PIB em 2022 de 2,1% para 1,5%. “Em relação à conjuntura internacional, as projeções coletadas dos analistas de mercado indicam revisão negativa da atividade para as principais economias globais. Observa-se que as mudanças ocorrem desde o final do terceiro trimestre do ano passado, com revisões maiores para alguns países após o início do conflito no Leste Europeu”, informou o Ministério da Economia no Boletim Macrofiscal divulgado na quinta-feira, 17. A análise é corroborada pelo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que indicou a queda de 1 ponto percentual do PIB global em reflexo da guerra. Os impactos seriam mais fortes na Europa, com a redução de 1,4 ponto.

Apesar de a Ucrânia e a Rússia terem pouca relevância na formulação do PIB global, o papel dos países na oferta de commodities — sobretudo petróleo, gás e grãos —, faz com que o conflito reverbere em regiões que são referências econômicas, como o bloco europeu, observa o economista-chefe do banco Original, Marco Caruso. Uma possível retração nas potências da Europa, que poderia se estender até aos Estados Unidos, vai se espalhar em todo o mundo no corte de demanda e liquidez financeira. A entidade não alterou a previsão de 0,5% para o crescimento do PIB deste ano. Porém, se antes a previsão tinha viés para alta, o prolongamento dos bombardeios na Ucrânia tirou força do tom otimista. “É importante analisar a forma que o conflito vai escalar. Mesmo que ele se prolongue, se a situação continuar como agora, não vejo motivos para revisões negativas”, afirma o economista.

Pão e carne mais salgados

A Ucrânia é uma das líderes mundiais na produção de trigo e milho, e a interrupção do trabalho nas lavouras repercute por uma série de itens. Em algumas padarias do Brasil, o quilo do pão já é comercializado até R$ 21 em meio à disparada do preço do trigo no mercado internacional. Uma tonelada subiu 26% desde o início do confronto, passando de US$ 287 no dia 23 de fevereiro, véspera da invasão, para US$ 362 na sexta-feira, 18. No meio do caminho, a cotação chegou ao pico de US$ 422 no dia 3 de março. Mesmo que a maior parte do trigo brasileiro venha da Argentina, a valorização do preço impacta em todo o mercado global. No caso do milho, a situação não é diferente. Apesar de o Brasil estar à frente da Ucrânia no ranking de produção, o país europeu ainda tem papel relevante, e os efeitos da quebra da safra corre ao redor do mundo. A cotação do bushel — medida equivalente a quase 30 quilos —, aumentou 8% desde o início da guerra. Como o cereal é usado na ração de animais, o aumento do preço de produção deve ser repassado aos consumidores.

Os analistas são unânimes ao citar a inflação como o principal canal de interferência na economia brasileira. A alta nos combustíveis — que já encostam em R$ 8 nas bombas —, foi o primeiro fator. A grande dependência do Brasil no transporte terrestre vai fazer com que esse aumento impacte praticamente tudo que é movido de um lugar para o outro em cima de um caminhão. Em efeito cascata, isso deve trazer pressão para a inflação medida pelo Índice Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que em fevereiro bateu 1,01% — o maior registro para o mês em sete anos —, e foi a 10,54% no acumulado de 12 meses, sem ainda contar com fator guerra. “O Brasil está afastado geograficamente, mas os efeitos vão chegar com a inflação, principalmente do trigo, do milho e de fertilizantes”, diz Simone.

Um PIB baixo é reflexo de uma economia que cresce pouco ou, em casos de recessão, encolhe. Esse movimento é gerado por inúmeras conjunturas e leva uma série de fatores em consideração, mas, em suma, pode ser exemplificado pela queda das atividades, como o consumo, a produção industrial e a contratação de serviços. Para o brasileiro, esse cenário negativo se mostra presente em diversas esferas, desde a queda do poder de compra até o aumento do desemprego, passando pela maior desigualdade social e a exclusão de oportunidades para os mais vulneráveis. “Tivemos a revisão do governo com base no cenário de hoje, mas o conflito pode se estender por mais tempo e novos desdobramentos podem ocorrer, tudo isso tende a gerar efeitos ainda mais negativos”, considera o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Joelson Sampaio.

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