Reversão da alta da taxa de juros parece cada vez mais distante, diz especialista

Razões para alta seriam aumento das previsões para a inflação em 2022 e 2023 e incertezas no cenário internacional

  • Por Jovem Pan
  • 04/05/2022 21h01
Marcello Casal Jr/Agência Brasil Sede do Banco Central, em Brasília Copom é o principal instrumento do Banco Central para mexer na taxa de juros

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) realizou nesta quarta, 4, mais um aumento na taxa básica de juros, o décimo consecutivo: de 11,75% ao ano, passou para 12,75% ao ano, o maior nível desde janeiro de 2017. Na análise de Luis Alberto Paiva, sócio e CEO da Corporate Consulting, o aumento não surpreende, mas também não convence o mercado financeiro de que o atual ciclo monetário chegou ao fim, e a situação complica famílias e empresas. “A inflação segue resistente e sua convergência para a meta pauta as ações do BC e, embora inflação alta não seja privilégio do Brasil nesse período pós-pandemia, é inegável que os efeitos ruins da prática de juros tão elevados atingem em cheio o orçamento das empresas e das famílias. Os balanços trimestrais das empresas, em fase de divulgação, confirmam o impacto do aumento de custos de matérias-primas e insumos e também os custos financeiros”, avalia.

Paiva comenta que o fim do ciclo de altas ainda pode demorar, apesar dos problemas que traz para o país. “Apesar do estrago provocado por essa taxa de juro na atividade econômica, a disposição do BC de conter a deterioração das expectativas e promover a convergência da inflação para a meta fortalece a percepção de que o Copom deverá elevar a Selic ao menos mais uma vez, na reunião de junho. No comunicado, o Copom sinalizou mais um ajuste ‘de menor magnitude’. Contudo, a reversão da alta parece cada vez mais distante. Os dados apontam que a qualidade do crédito está piorando e os indicadores mais recentes de atividade, embora apontando melhora na margem, não acenam com expansão firme da economia. A pesquisa Focus, do BC, aponta alta de 0,70% do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano e 1% para 2023. Por ora, não se vê luz no fim do túnel”, lamenta o executivo.

Camila Abdelmalack, economista chefe da Veedha Investimentos, explica que as razões para a continuidade desse aumento são o aumento nas projeções para a inflação e as incertezas no cenário internacional. “Projeto uma elevação da Selic para 13,25% [na próxima reunião]. Eu vinha projetando que a taxa ficaria estável em 12,75%, no entanto, parece que o Banco Central vai seguir com a estratégia da convergência com a inflação, que teve revisões para cima tanto para 2022 quanto 2023, se afastando da meta para os respectivos anos. O Banco Central colocou que, além da pressão inflacionária por causa do conflito europeu, tem os lockdowns na China, que podem trazer surpresa inflacionária porque acabam acentuando um problema, que é o da cadeia de abastecimento de suprimentos, principalmente a dos semicondutores e chips, ainda não normalizadas e que podem trazer mais pressão para o cenário global. Temos ainda algumas questões a observar, como o comportamento da taxa de câmbio. O Banco Central ainda não conseguiu se comprometer com o fim do ciclo da taxa de juros porque há muita incerteza no que diz respeito ao cenário internacional, então ele está limitado a fornecer algum tipo de indicação e o que está dentro das possibilidade é reduzir o ritmo da elevação dos juros, como foi feito”, comenta.

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Os juros são usados pelo Banco Central como uma ferramenta para tentar controlar a inflação, pois a alta ou a queda dos juros mexe com o consumo das famílias e a tomada de crédito no país. De modo geral, quando a inflação está alta, o BC sobe os juros para reduzir o consumo e forçar os preços a cair. Quando a inflação está baixa, o BC derruba os juros para estimular o consumo. A Selic tem influência em todas as taxas de juros do país, como a dos empréstimos, financiamentos e das aplicações financeiras. Quando o BC altera a meta da Selic para baixo, a rentabilidade dos títulos atrelados a ela cai e, com isso, o custo dos bancos também diminui. Assim, uma redução da Selic, por exemplo, deve fazer com que os juros cobrados pelas instituições financeiras em empréstimos também caiam. O contrário ocorre quando a Selic sobe: o custo dos bancos aumenta e eles passam a cobrar mais pelos empréstimos. A taxa Selic é decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) a cada 45 dias, e é influenciada por questões como a inflação, risco de recessão e perspectivas de crescimento econômico.