Risco fiscal e turbulência política afetam o câmbio e afastam chance de dólar abaixo de R$ 5
O trajeto de forte valorização do real entre o fim de março e o início deste mês chamou a atenção do mercado financeiro. Em seis semanas, o dólar despencou 8,5%, passando da faixa de R$ 5,41 para a de R$ 5,22, patamar semelhante ao visto no início de janeiro. Entretanto, o ritmo acentuado, pressionado principalmente pela disparada dos preços das commodities, queda da taxa de juros nos Estados Unidos e o alívio fiscal pela resolução do Orçamento de 2021, não gerou otimismo suficiente para projetar a volta do câmbio para abaixo de R$ 5 neste ano ou em 2022. Na opinião dos analistas, as forças que trouxeram o dólar ao menor nível em cinco meses não terão fôlego para continuar influenciando a moeda para baixo. Ao mesmo tempo, o Brasil continua com graves problemas políticos e fiscais, e não há perspectiva de que esse cenário de risco se dissipe brevemente. Pelo contrário: as incertezas dos desdobramentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 ao governo e a aproximação das eleições presidenciais de 2022 devem trazer mais estresse ao mercado e alimentar a volatilidade do câmbio.
A recente reação do real ante o dólar vem mais de fatores externos do que domésticos. O movimento foi puxado pelo crescimento recorde do minério de ferro no mercado internacional em meio ao crescimento da China após a pandemia do novo coronavírus. O ritmo, porém, não é visto como sustentável para continuar levando o dólar para baixo por muito mais tempo, e entre quinta, 13, e sexta-feira, 14, a commodity já registrou queda de aproximadamente 10% após autoridades chinesas ameaçarem suspender o contrato de usinas suspeitas de terem manipulado o mercado. Já os Estados Unidos contribuíram com a manutenção dos juros em valor mínimo, injetando dólares nos mercados globais e favorecendo toda a cesta de moedas emergentes, incluindo o real brasileiro. Mas esta fonte também não se mostra duradoura. Bastou os investidores cogitarem que o Banco Central norte-americano (Fed, na sigla em inglês) poderia elevar a taxa de juros após a inflação em abril vir maior do que o esperado, que o dólar teve novo repique e fechou a semana com alta de 0,82%, a R$ 5,27. Desde o início do ano, o câmbio acumula alta de 1,5%. Em 2020, o real fechou com desvalorização de 29% ante o dólar.
No cenário doméstico, a disparada da dívida pública do governo federal, que em março atingiu 89% do Produto Interno Bruto (PIB) e segue tendência de alta, é o principal vetor do campo fiscal que impede o dólar de descer. Apesar das perspectivas da saúde econômica pública terem sido atenuadas com a resolução do Orçamento de 2021, mesmo que de uma forma aquém da esperada pelo mercado, o endividamento do governo seguirá barrando a valorização do real. “O cenário fiscal tende a piorar. A dívida vai continuar elevada por causa dos gastos do governo com o novo coronavírus, e para o Orçamento do ano que vem teremos uma nova discussão pelo teto de gastos”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Apesar da alta recente da moeda brasileira, as circunstâncias indicam o câmbio na faixa de R$ 5,40 na virada de 2022, mesmo que, em algum momento, a moeda norte-americana possa experimentar um patamar mais reduzido. “Há muitas dificuldades, e o cenário aponta para pressões mais para cima do que para baixo.”
[jp-related-posts ids=”1094541,1094462,1094180″]
A moeda norte-americana ultrapassou a marca dos R$ 5 pela primeira vez em 16 de março de 2020 e subiu a ponto de bater em R$ 5,90 — o maior valor desde a criação do plano Real, em 1994 — em 13 de maio do mesmo ano. O câmbio chegou a arrefecer semanas depois e retornar a casa dos R$ 4, porém, a partir do dia 12 de junho de 2020, ao cruzar novamente a linha, a moeda nunca mais voltou a ceder para menos de R$ 5. “Neste momento, estamos na beira do caminho. Não vemos o risco fiscal indo embora, mas também não há sinais de que ele vá se tornar um problema maior e que trará mais desconfiança da dívida pública”, afirma Victor Scalet, estrategista de macroeconomia da XP Investimentos. O avanço da agenda de reformas no Congresso, mesmo que de uma forma menos robusta do que o projetado pelo mercado, é um dos principais meios para sinalizar aos investidores o compromisso do governo em atenuar o risco fiscal, e assim trazer o dólar para patamares mais reduzidos. Na avaliação da XP, no entanto, o dólar deve seguir este patamar de R$ 5,30 até o fim do ano. “Os avanços são possíveis, mas, se ocorrerem, serão pequenos. Na prática, não deve ser entregue muito neste ano, logo o risco fiscal continuará pairando”, diz o economista.
A turbulência com as notícias de Brasília é outro fator que tende a impedir que o câmbio arrefece para a casa dos R$ 4 no médio prazo. A investigação das ações do governo federal no combate à pandemia do novo coronavírus, além do repasse das verbas da União aos Estados e municípios, pela CPI da Covid-19 é a nova fonte de ruído na pauta política E este barulho tende a crescer a partir da aproximação das eleições de 2022 e a definição dos candidatos à Presidência da República. “Apesar de vermos a economia brasileira se recuperando como um todo, o cenário político pesa muito. E, historicamente, em anos de eleição há uma depreciação da taxa de câmbio”, afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest. Mesmo que o dólar tenha perdido fôlego ante o real, a analista diz que o valor ainda está acima do esperado para a realidade brasileira, mas que ainda deve passar por altos e baixos antes de cruzar o novo ano na casa de R$ 5,10. “Embora o dólar tenha caído, ainda está em um patamar muito elevado, e isso sugere que tem muito a ver com questões conjunturais que estão longe de acabar.”
continue lendo
Mundo
Economia do Irã não precisa colapsar, mas regime deve cair, diz secretário dos EUA
Scott Bessent disse que pressão econômica contra Teerã deve continuar
- Prejuízo líquido dos Correios sobe no 1º semestre, mas cai no 2º trimestre Estadão Conteúdo · há 2 dias
- Governo prorroga subvenção à gasolina até 9 de setembro, quando vence MP Estadão Conteúdo · há 5 dias
- Receita libera consulta ao último lote de restituição do Imposto de Renda 2026 Agência Brasil · há 1 semana
- Projeção do Focus para crescimento do PIB de 2026 segue em 1,98% Estadão Conteúdo · há 2 semanas