Grande desafio de Cuba é a unificação cambial, afirma Banco Mundial

  • Por Agencia EFE
  • 29/01/2015 22h50

Alfonso Fernández.

Washington, 29 jan (EFE).- O economista-chefe do Banco Mundial (BM) para a América Latina, Augusto de la Torre, afirmou nesta quinta-feira que o grande desafio que Cuba enfrenta, dentro do processo de normalização de relações com os Estados Unidos, é a “unificação” do sistema cambial, para eliminar a “gigante” distorção macroeconômica atual.

“A unificação cambial é muito complicada, mas é o desafio mais importante e dominante”, afirmou De la Torre, ao comentar o processo de restabelecimento de relações entre EUA e Cuba em uma conferência no Peterson Institute for International Economics, um centro de estudos econômicos com sede em Washington.

Em Cuba vigora um sistema de moeda dupla: o peso conversível cubano, CUC, é a moeda forte, na qual boa parte dos produtos e serviços da ilha é comercializado, enquanto a maior parte dos cubanos recebe seu salário em pesos cubanos (CUP). Atualmente, 1 CUC, que tem paridade com o dólar, equivale a 24 CUP.

Como consequência, o diferencial monetário em Cuba é de 2.400%, o que representa na prática um “ardil fiscal” através de “um sistema de subsídios e impostos: impostos ao trabalhador e subsídios ao Estado”, comentou De la Torre.

Portanto, para avançar rumo à normalização econômica é necessário uma “grande reforma tributária”, que em um primeiro momento será “dolorosa” e só “dará frutos no médio prazo”, advertiu o economista.

De la Torre defendeu um processo de “transição”, no qual seja realizada a unificação da taxa de câmbio “de uma só vez e com transparência”, mantendo a taxa por dólar a 24 pesos e eliminando a moeda dupla, mas oferecendo um “forte amortecedor fiscal para suavizar o impacto”.

No entanto, o economista reconheceu que um dos problemas da ilha é a sua incapacidade de acessar os mercados internacionais e instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o próprio Banco Mundial ou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que poderiam fornecer esses fundos.

Para que Cuba seja incorporada a estas instituições, Havana deveria solicitar formalmente sua entrada, explicou De la Torre à Agência Efe.

A conferência do Peterson Institute for International Economics é parte do diálogo aberto pelo processo de normalização entre Washington e Havana anunciado em dezembro, depois de 50 anos – as primeiras medidas entraram em vigor em 16 de Janeiro.

Entre elas está a flexibilização das restrições de viagem dos americanos para Cuba, aumento do limite máximo de US$ 500 para U$S 2 mil por trimestre para o envio de remessas, permissão para a exportação de materiais de construção e ferramentas, assim como equipamentos para a agricultura privada.

Além disso, a MasterCard demonstrou intenção de desbloquear, a partir de 1º de março, as transações com cartões emitidos por bancos americanos, e, em paralelo, a American Express anunciou que planeja operar no país, uma vez que algumas das restrições econômicas não existam mais.

Os EUA destacaram o potencial econômico de Cuba, um país que fica a apenas 140 quilômetros da costa da Flórida, especialmente do ponto de vista de investimentos.

Segundo relatório de Barbara Kotschwar e Gary Hufbauer, pesquisadores do Peterson Institute, os fluxos de investimento estrangeiro direto em Cuba, como resultado do processo de normalização comercial e econômica, aumentaria de US$ 1 bilhão anuais para US$ 17 bilhões.

Apesar de a aproximação de EUA e Cuba ter acontecido graças ao presidente Barack Obama e seu colega cubano Raúl Castro, o maior desafio é acabar com o bloqueio comercial à ilha caribenha por parte de Washington.

Somente o Congresso dos Estados Unidos tem o poder de aprovar a anulação do bloqueio e o atual controle de ambas as câmaras é da oposição republicana, que rejeita a medida, dificultando o processo. EFE