Legimitidade de futuro governo afegão é fundamental para manter a paz

  • Por Agencia EFE
  • 03/04/2014 17h24

P. Miranda.

Cabul, 3 abr (EFE).- O candidato que vencer as eleições presidenciais do Afeganistão, que acontecem neste sábado, deverá lidar com a implacável necessidade de evitar uma nova guerra civil e liderar um país em que a democracia está longe de estar consolidada.

“O desafio que este pleito apresenta tem muito a ver com o que acontecerá entre a votação e a posse do novo governo, daqui a alguns meses”, disse o analista político italiano Fabrizio Foschini, membro da Rede de Analistas do Afeganistão.

Em entrevista à Agência Efe, Foschini defendeu que “a falta de legitimidade pode ser o principal contratempo do novo executivo se o processo eleitoral não for transparente e plausível para o povo afegão”, com o risco de a violência no país aumentar.

Está prevista ainda um segundo turno que, de acordo com o calendário da Comissão Eleitoral afegã, não acontecerá antes do fim de maio, o que deixa a eventual passagem da faixa presidencial para o meio do ano ou até depois disso.

“A transição vai ser longa e tem que ser suave para evitar ao máximo mais instabilidade e violência política por parte dos perdedores”, argumentou o italiano, que vive em Cabul há muitos anos e é um bom conhecedor da política local.

De Washington, a analista do Instituto de Estudos Brookings, Vanda Felbab-Brown, concordou com Foschini em um artigo recente ao afirmar que a aceitação do resultado é tão importante para o futuro do país como as questões de segurança.

“As eleições serem consideradas legítimas para o povo afegão ou surgir uma profunda crise política e inclusive uma rodada de confrontos será tão crucial para o futuro como saber se as tropas ocidentais ficarão no local após 2014”, argumentou Felbab-Brown.

A continuidade do sistema político instaurado após a queda dos talibãs com o apoio e o vasto financiamento da comunidade internacional não se vê ameaçada somente pela insurgência, mas pelos males que carrega há mais de uma década.

“Eleições bem-sucedidas podem servir como plataforma para a renovação de um sistema político que é amplamente percebido como ilegítimo por causa da incompetência, da corrupção, do nepotismo e do abuso de poder, associados ao governo e a seus parceiros”, ponderou a analista.

As reservas causadas pela quase absoluta falta de observadores internacionais e as irregularidades denunciadas pela imprensa local e internacional na prévia das eleições não ajudam a aumentar a confiança de parte da comunidade internacional no processo.

A solidez e a credibilidade do novo executivo dependerão de sua capacidade de enfrentar o grande desafio do Afeganistão, a paz.

“A grande fraqueza do governo Karzai na hora de negociar foi ter uma agenda focada em agradar a comunidade internacional, mas o novo executivo pode ter mais força. Até certo ponto, é um novo começo”, explicou Foschini.

“Os talibãs sabem que Karzai não foi honesto em suas tentativas de diálogo e uma nova liderança pode mudar a situação”, acrescentou o analista local Syed Dawoud.

Para Dawoud, “os talibãs mudaram em relação aos anos 90 e sabem que não vão ter os apoios que tinham então para chegar ao poder”, e por isso estarão abertos a dialogar, inclusive se um contingente dos EUA continuarem no país.

“A administração afegã precisa do apoio financeiro internacional, incluindo o da Otan, e isso é inegável até para os talibãs, portanto há margem para negociação também nesse quesito”, defendeu.

“O governo e a comunidade internacional já tentaram de tudo durante mais de uma década para fazer o país funcionar e não deu certo. A esta alturas todos os afegãos sabem que a paz não é só uma necessidade, é a única via”, sustentou Dawoud. EFE