Estado Islâmico assume controle de cidade rica em gás em Moçambique

ONG relata que boa parte de Palma foi destruída e que há diversos cadáveres decapitados espalhados pelas ruas; Estados Unidos prometeram intervir no conflito

  • Por Jovem Pan
  • 30/03/2021 17h04 - Atualizado em 30/03/2021 19h25
EFE/EPA/LUIS FONSECAMilhares de moradores de Palma deixaram as suas casas e forma buscar refúgio na vizinha Pemba

O Estado Islâmico reivindicou nesta segunda-feira, 29, a autoria de ataques realizados através do grupo fundamentalista islâmico Al Shabab no norte de Moçambique, que culminaram na tomada de Palma. A cidade portuária fica a dez quilômetros do local onde uma refinaria de extração de gás está sendo construída com investimentos do grupo francês Total, da italiana Eni e da norte-americana ExxonMobil. Os extremistas começaram a cercar Palma na quarta-feira, 24, mesmo dia em que a Total anunciou a retomada das obras na refinaria e a previsão de início das operações em 2024. O Estado Islâmico afirma que os seus jihadistas assumiram definitivamente o controle da cidade no sábado, 27, depois de terem tomado a sede do governo local, quartéis militares, fábricas, bancos e prédios. A organização terrorista também disse ter matado pelos menos 55 cristãos e soldados moçambicanos, além de alguns estrangeiros. O jornal britânico The Times confirmou que pelo menos um cidadão do Reino Unido faleceu durante a invasão. Ainda não há números oficiais da tragédia, mas a organização não-governamental Human Rights Watch relata que boa parte do município de 75 mil habitantes foi destruído e que há diversos cadáveres espalhados pelas ruas de Palma, alguns deles decapitados.

Refugiados

Desde os primeiros ataques do Al Shabab na quarta-feira, 24, milhares de moradores de Palma deixaram as suas casas. Entre 6 mil e 10 mil pessoas estariam abrigadas dentro da própria refinaria de extração de gás europeia, que tem milhares de hectares e é fortemente protegida. Outros embarcaram em balsas, barcos e canoas com destino à cidade vizinha de Pemba ou então passaram dias caminhando no meio do mato até chegarem na fronteira com a Tanzânia. Agentes da Organização das Nações Unidas (ONU) e representantes de algumas ONGs estão buscando ajudar esses refugiados.

Resposta Internacional

Os Estados Unidos condenaram nesta segunda-feira, 29, o ataque do Estado Islâmico à cidade de Palma, em Moçambique. O Pentágono afirmou estar “decidido” a cooperar com o governo moçambicano no combate aos fundamentalistas islâmicos, apesar de ter se recusado a especificar como as forças norte-americanos ajudarão a retomar o controle da cidade portuária. No mesmo dia, Portugal garantiu que enviará 60 militares para a sua ex-colônia nas próximas semanas.

Contexto Histórico

Desde que Moçambique conquistou a sua independência de Portugal em 1975, a região de Cabo Delgado, que vai da cidade de Palma a Pemba, foi negligenciada pelo governo central. A situação começou a mudar há três anos, após a descoberta de reservas de gás natural que começaram a ser exploradas pelo governo moçambicano e por empresas multinacionais. Esse processo, no entanto, aconteceu sem qualquer incentivo ao desenvolvimento econômico e social dos moradores locais, que sequer foram empregados pelas refinarias. A Anistia Internacional, em relatório publicado no início de março, também acusa Moçambique de ter contratado os serviços de uma empresa militar privada da África do Sul para atuar de forma violenta com a população de Cabo Delgado. O fato é que desde a descoberta das reservas de gás natural, o Al Shabab jurou fidelidade ao Estado Islâmico e vem utilizando a fachada de grupo fundamentalista para encobrir a sua real motivação econômica e política sobre a região litorânea, executando diversos ataques que levaram à fuga de quase 700 mil pessoas. Antes da recente tomada de Palma, os confrontos já somavam 2.658 mortos, dos quais 1.341 eram civis.