Negacionista da pandemia, presidente da Tanzânia morre e oposição diz que foi por Covid-19

John Magufuli, que negava a presença do novo coronavírus no país, estava há quase 20 dias sem aparecer em público; rumores indicam que ele estava no Quênia recebendo tratamento para a doença

  • Por Jovem Pan
  • 18/03/2021 11h15 - Atualizado em 18/03/2021 11h50
EFE/EPA/ANTHONY SIAMEJohn Magufuli chegou a afirmar que o coronavírus era um "demônio" que poderia ser combatido com orações

O presidente da Tanzânia, John Magufuli, morreu aos 61 anos de idade nesta quarta-feira, 17, de acordo com a vice-presidente Samia Suluhu Hassan. O chefe de Estado estava supostamente internado em um hospital em Dar Es Salaam, a maior cidade do país, por causa de um problema cardíaco. A última aparição pública de Magufuli foi no dia 27 de fevereiro, motivo pelo qual já vinham circulando rumores sobre o seu estado de saúde. No entanto, até o anúncio do falecimento, o governo se recusava a dar informações sobre o paradeiro do presidente e advertia contra boatos envolvendo a situação. Enquanto isso, o líder da oposição Tindu Lissu afirmava que John Magufuli sofreu uma parada cardíaca em consequência de uma infecção pelo novo coronavírus e foi levado a um hospital de Nairóbi, capital do Quênia, onde estava em estado crítico desde o último dia 8. Segundo ele, o presidente da Tanzânia morreu no último dia 10 de Covid-19. “Isto é justiça poética. O presidente Magufuli desafiou o mundo na luta contra o coronavírus. Desafiou a ciência. Ele se negou a adotar as precauções básicas que são recomendadas às pessoas de todo o mundo”, afirmou Lissu nesta quinta-feira, 18.

O governo da Tanzânia teria ocultado o real motivo do “desaparecimento” do presidente porque John Magufuli afirmava que não havia mais nenhum caso de Covid-19 no país desde junho de 2020. Além disso, ele se recusava a permitir que a Tanzânia recebesse vacinas contra a Covid-19, zombava da eficácia das máscaras de proteção individual e duvidava dos testes que detectam a presença do Sars-Cov-2 no organismo, apesar de não apresentar nenhuma evidência científica que desse embasamento às suas afirmações. Nesta terça-feira, 16, a vice-presidente Samia Suluhu Hassan tinha admitido que o presidente John Magufuli estaria indisposto e pediu orações. “É bastante normal que o corpo de uma pessoa fique indisposto e contraia gripe ou desenvolva febre… Este é o momento para os tanzanianos se unirem por meio de orações”, afirmou. No entanto, ela também alertou contra os rumores sobre a saúde do chefe de governo. “A maioria dos boatos que você ouve não tem origem na Tanzânia. Eles vêm de fora do país. Eu peço que vocês os ignorem”, completou. De acordo com a imprensa local, uma pessoa foi presa por circular mensagens sobre John Magufuli supostamente estar com Covid-19.

Na ausência de dados oficiais desde maio de 2020, não há como saber a verdadeira extensão da pandemia do novo coronavírus na Tanzânia, mas nas últimas semanas tem havido preocupações crescentes sobre um aumento nos casos de doenças que estão sendo chamadas apenas de “pneumonias”. Desde fevereiro, líderes da Igreja Católica vinham se posicionando contra o presidente e alertando que o surto do novo coronavírus continuava existindo. “Não sejamos inconsequentes, nós temos que nos proteger, lavar as mãos com sabão e água. Nós também temos que voltar a usar máscaras”, pediu o bispo de Dar Es Salaam, Yuda Thadei Ruwaichi. A ministra da Saúde, Dorothy Gwajima, contribuiu para a desinformação da população nos últimos meses ao dizer que um método que pode ajudar a se prevenir da doença é tomar uma bebida à base de gengibre, cebola, limão e pimenta. “Precisamos melhorar nossa higiene pessoal, lavar as mãos com água corrente e sabão, usar lenços, vapor de ervas, fazer exercícios, comer alimentos nutritivos, beber muita água e usar remédios naturais que a nossa nação é dotada”, acrescentou. Tudo isso, segundo ela, não porque o novo coronavírus ainda está no país, mas sim porque a Covid-19 está se alastrando pelas nações vizinhas.